Meu doce, cuidado com a Félix. Perigósann!

Meu doce, cuidado com a Félix. Perigósann!

É a “namoradinha do Brasil”. Toda trabalhada no écharpe, gongando até recém-nascido e dando pinta horrores, nossa mais nova diva da maldade surge em um momento pertinente. O vilão Félix, da novela “Amor à vida“, já chegou causando e, entre risos maléficos e um arquear da sobrancelha, levanta questões interessantes sobre a comunidade gay.

Já estava mais do que na hora de um “vilão gay” e com certeza, parte da militância dirá que é mais uma representação negativa dos homossexuais na TV. Só Deus sabe quantos milênios de evolução ainda nos separam do nosso primeiro mocinho biba, mas quem se importa? Félix foi instantaneamente aceito pois todo mundo adora um bom vilão e de uns tempos para cá, isso tem ficado cada vez mais evidente. É como se servissem de válvula de escape para o nosso recalque: permitem fantasiar sobre aquela resposta ácida não dada, sobre a vingança que não tivemos coragem de executar ou ainda sobre nossa própria maldade, que somos condicionados a mascarar.

Esses estereótipos existem porque “onde há fumaça, há fogo” e, gostem ou não, Félix representa um dos mais comuns: a “bicha má”. Esse toque efeminado bitchy, a arrogância e o ar ferino – e felino, pensem no Scar de “O Rei Leão” –, são cada vez mais presentes em nossa comunidade. São até celebrados. É por isso que já adotamos o moço como neo diva, pois o machismo nosso de cada dia prefere qualquer coisa do que uma “bichinha pintosa”. Ele podia até ter matado a sobrinha bebê que estaria tudo lindo!

Mas calma, longe de mim dizer que Félix não é pintosa. Pelo contrário, ele dá pinta até demais para quem está “no armário”. Isso acontece porque a novela é feita para a massa e não é um veículo que permita sutilezas de interpretação. Mateus Solano é ótimo ator e esse tipo de personagem é extremamente rico, então não vai tardar para ele colocar o casalzinho protagonista no bolso, ainda mais com o elenco inteiro forçando a barra no sotaque paulista. O exagero é parte da construção da personagem, pois além de dar o que falar nas redes sociais, o que é essencial hoje em dia, humaniza Félix. Já ficou estabelecido que, apesar da esposa e do filho, ele não engana ninguém, já que os demais personagens comentaram do seu “jeitinho”. É aí que nós ganhamos muito mais do que um vilão para amar e odiar, porque questões muito íntimas da nossa vivência estão sendo jogadas na sala de estar da família brasileira.

Em pouco mais de uma semana de novela, ele falou sobre as dificuldades de uma “infância gay”, da homofobia – inclusive a internalizada –, do horror em ser rejeitado pelo pai machão e que sexualidade não é opção. Félix ainda disse que foi “born this way” e prometeu que se trancaria no armário, apenas para mostrar que isso é impossível poucas cenas depois. Em outro momento relevante, temos seu pai admitindo que se preocupava com a aparente homossexualidade do filho, mas que o educou para suprimir isso, o que sabemos que não funcionou. Ainda por cima, o vilão mostra o tipo de sentimento que a rejeição pode fazer aflorar, pois é óbvio que grande parte do seu recalque é por não poder viver livremente. Félix está frequentemente se denunciando com trejeitos e olhando com desejo para outros homens, jogando luz sobre uma enorme parcela da comunidade gay, que é quase invisível por sua própria definição: os enrustidos. É uma ótima representação, porque a homossexualidade é um assunto em alta e, exceto pelos doidos que insistirão que “a Globo está estimulando a Ditadura Gay”, fará o povo pensar. Além disso, nos últimos anos, nós andávamos muito “inofensivos” na TV…

Até acredito que toda forma de representação da homossexualidade é positiva. A visibilidade nos torna menos alienígenas, e seja pintosa, seja enrustido ou seja bicha má, todo estereótipo certamente representa uma faceta do que somos. Também entendo que a transformação acontece aos poucos, e que talvez por isso tenha sido necessário criar uma imagem palatável dos gays, nos tempos do “politicamente correto”, para “ver se colava” sem ofender ninguém. Entretanto, as últimas representações eram quase sempre de um homem-branco-limpinho-discreto, numa linda relação monogâmica; como vizinho camarada da mocinha. Se pá, só faltava adotar um gato na saída da ópera! Pode até ser que esse estereótipo nos ofenda menos – por que será, né? – mas se lutamos por igualdade o que queremos é ser tratados como o que somos. Normais.

Parabéns ao Félix, que já está no time de Carminha, Nazaré, Laura Prudente da Costa e até da mamãe Branca Letícia de Barros Motta. Há gays bons e gays maus, honestos e desonestos, bonitos e feios. A existência de um vilão gay é o reconhecimento que sexualidade não influi no caráter de ninguém, seja para o bem ou para o mal. Ironicamente, isso transforma o personagem num herói. E se nessa escalada para o sucesso ele conseguir acabar com a irmã chata, e ainda terminar numa cama cheia de boys, tanto melhor!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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