Orgulho pra quê?

Orgulho pra quê?

Uma das coisas que não para de me espantar é a capacidade que as pessoas têm de se apegar a fatos aleatórios para desfrutar de um certo senso de valor próprio. Por exemplo, orgulho de ser brasileiro/ianque/oiapoquense, que é basicamente ter orgulho de ter nascido no local onde sua mãe entrou em trabalho de parto.

Realmente sinto uma enorme dificuldade em entender a aplicação do conceito de orgulho em casos como esse, talvez por entender a palavra como o sentimento apropriado àqueles que não encontram aceitação plena da maioria do grupo social. Então sentir orgulho de ser brasileiro, estando no Brasil em meio de tantos outros brasileiros me parece sem sentido. Especialmente durante partidas desportivas internacionais quando torcer pelo seu país parece o ato maior de patriotismo em terras tupiniquins.

Também não entendo orgulho bairrista. Quando alguém enche a boca pra falar onde mora tenho certeza de que não é um ganhador do Nobel, nem de concurso de corrida de colher. Isso pra não mencionar o absurdo que é associar o local onde se mora com alguma superioridade moral, intelectual ou metafísica. Não saberia dizer. Tudo bem você paga IPTU caro, mas será que ter empregada te torna uma pessoa mais educada ou agradável?

Provavelmente alguém vai me dizer que isso é recalque suburbano… E é a elas mesmo que dirijo minha dúvida: morar “bem” te torna uma pessoa melhor? A prepotência de achar que sim não se enquadra no meu referencial de uma pessoa admirável. Assim como nenhum tipo de arrogância.

Compartilhar dos valores usados para oprimir outros e se vangloriar disso faz com que eu duvide um pouco da “generosidade” – para dizer o mínimo – de quem se diz orgulhoso por ser hétero, branco, homem ou até mesmo rico. Não que estes atributos sejam coisas das quais as pessoas devam se envergonhar ou se sentir culpadas em sê-las, mas a partir do momento em que julgamos os divergentes como menores por não estarem no mesmo patamar que o nosso – seja lá qual for o seu critério – estamos, inevitavelmente oprimindo alguém.

Quando se cresce sob o estigma de ser uma criança fora dos padrões de gênero, cor ou status social fica difícil não sonhar com o dia em que tais empecilhos sociais sejam resolvidos. O problema está em acreditar e reproduzir a ideia de que somente compartilhando das “armas” do opressor que podemos ser verdadeiramente felizes ou satisfeitos com as nossas vidas. Até porque satisfação e capitalismo são coisas que não coexistem.

No entanto, o orgulho é um sentimento extremamente válido, quando o mundo insiste em nos fazer sentir vergonha pelo que somos e não podemos mudar – como poderia ser o caso do bairro, sendo que morar numa “vaga” na zona nobre da cidade já “resolve”. Entendo quem é contra o orgulho de ser negro, até porque só o MJ teve escolha nesse aspecto, mas concordo inteiramente com quem faz desse sentimento uma armadura diária. Até porque não é por não presenciarmos ou conscientemente atuarmos em situações de preconceito racial que podemos ignorar o sentimento de opressão que é ter todos os padrões estéticos, intelectuais e sociais atribuídos quase que exclusivamente a outros tons de pele.

Da mesma forma considero válidas as paradas de Orgulho Gay, já que diferentemente dos negros, a opressão nos faz acreditar que é algo que devemos ocultar por medo/vergonha.

Contudo, a questão é que sentir orgulho resolve um problema do indivíduo, frente às forças de “docilização” social, e em nada afeta o status quo. Isso significa fazer dessa armadura um acessório quase que diário para alguns, algo que pode e é exaustivo para quem se recusa a aceitar um rótulo que não o de: disfuncional-como-qualquer-um.

Portanto, repito, antes de exercermos o nosso orgulho precisamos entender que ele é um instrumento de defesa e não de ataque. Quando usamos para atacar alguém estamos meramente exercendo a inesgotável capacidade humana para o sadismo e a estupidez de agirmos irracionalmente.

Avatar
Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

Ver todos os posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *