O anel preciossso!

O anel preciossso!

É o evento pornô do século mês! No próximo dia 26, a produtora Men – não vou colocar link porque né, site de família e tu jura que vocês não conhecem – lançará com exclusividade o primeiro vídeo do astro Paddy O’Brian atuando como passivo! O gato, que se diz hétero, até hoje só foi ativo, mesmo já tendo sentado num ou outro consolo por aí, e agora se prepara para entreter os fãs com o sacrifício final: deixar-se penetrar por outro homem! Não é engraçado o valor que damos para um certo “anel”?

Eu admito, estou doido para ver tal cena, uma vez que o moço tem uma bunda espetacular, mas o que me chama a atenção é que certas facetas da masculinidade ainda sejam tão essenciais para o nosso desejo. E ainda pior, que tais construtos sociais de gênero sirvam para nos vender um produto, ao mesmo tempo em que reforçam conceitos de valoração sexual e dominação.

A graça toda, ao que parece, é ver esse macho hétero, que só “come uns viados aê” por dinheiro, sendo finalmente “possuído”. É uma espécie de vingança gay! Assistiremos ao momento único no qual ele terá sua masculinidade “roubada”. O tesão é esse! É como se o espectador assumisse o papel do dominador e desse o troco em cada machão que um dia foi preconceituoso ou simplesmente inacessível. É uma forma de finalmente irmos ao encontro do papel de “predador” que o gênero masculino nos definiu e que a homossexualidade cobriu de ridículo, de acordo com o estigma social.

Não sei qual é “verdadeira” orientação sexual do Paddy ou mesmo se isso existe. Quando surgiu, ele foi vendido como um rapaz pobre que aceitou “bater uma” por uns trocados e depois se deixou chupar por outro cara até que finalmente passou a comer também. Em uma entrevista, chegou a afirmar que era um “fodedor” e portanto jamais o veríamos como passivo.

Mas nesse mês, como se fosse uma grande bomba jornalística, os sites especializados noticiaram que ENFIM ele cedeu – ou se deu, sei lá. E pra completar, fizeram mistério sobre quem foi o ativo da história, pra brincarmos de adivinhar quem seria esse “homem capaz de domar o homem“!

Isso tudo é ótimo: Paddy e quem administra sua carreira têm todo o direito de potencializar ao máximo o valor de mercado dele. É o trabalho deles. Puro marketing. Tomam estímulos,  conceitos, e os utilizam de forma consciente e deliberada, para gerar um comportamento de consumo específico. Constroem uma figura altamente masculina, ao se aproveitarem do fascínio gerado por anos de amor e ódio ao ideal do MACHO na cultura gay e depois lucram ainda mais com a “destruição” desse mito.

O pornô é uma espécie de ilustração da nossa vida sexual, que tanto retrata quanto provoca nossos gostos. Ele estimula, mas só existe por causa de valores que já levamos para as nossas camas. Não inventa. Desse jeito, se o que há de atraente na “submissão” de Paddy O’Brian é essa “derrota do macho”, o que isso nos diz? O que revela sobre a nossa relação com o masculino? Como isso é intrínseco ao ato sexual e, especificamente, aos papéis de ativo e passivo no sexo anal?

Todos podem ter prazer com essa prática, seja lá qual dos papéis assumir, mas nem todos têm. Como gostos não são absolutos, não seria diferente com o ato sexual, pois é nele que nosso imaginário exerce função fundamental, de tal maneira que chega a ser mais importante até do que nossos órgãos sexuais. É por isso que o prazer em “dar” ou “comer” vai muito além do ato físico. A negociação entre dominar e ser dominado – ou se deixar dominar – faz parte do jogo. É o que torna “o anel” tão precioso.

Em todas as relações gays, essa negociação com “o masculino” se faz presente. Talvez seja porque homens são criados para competir uns com os outros, mas é como se estivéssemos sempre num “cabo de guerra” da macheza, avançando e retrocedendo dentro dela de acordo com a força das nossas atitudes. Quando entra o sexo, temos um ato de ruptura com o arquétipo do macho, sem ligação direta, mais uma vez, com os papéis representados.

Podemos ser mais dominantes dando ou mais passivos comendo, não é essa tecnicidade que define um “macho”. Esse “passa anel” vira uma metáfora da nossa busca de identidade, enquanto homens e homossexuais. Simbolicamente, é como se o “anel” e seus usos se tornassem, para os gays, tão preciosos quanto o pênis, esse “dedo” tão endeusado!

Seja fabuloso e… abre a rodinha por favor?

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página!

Avatar
Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

Ver todos os posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *