Ajoelhou, vai ter que rezar!

Ajoelhou, vai ter que rezar!

É festa no Rio de Janeiro! Pegação nas trilhas, aperto no metrô, congestionamento nas saunas e sobrecarga no Grindr! Juntando mais gays do que turnê da Beyoncé e Campeonato de Patinação Artística juntos, a Jornada Mundial da Juventude – que começou ontem e vai até o próximo dia 28 – nos aponta uma questão particularmente espinhosa: como conciliar a homossexualidade e certas religiões?

Brincadeiras à parte, não há como negar que a religião é parte importante da identidade gay. Ao buscar entendimento e/ou aceitação da nossa orientação sexual, passamos pela fé com um misto de amor e ódio que reflete a relação da própria Igreja com seus filhos homossexuais.

A maioria dos gays é educada para seguir alguma doutrina religiosa e também para considerar a homossexualidade como algo condenável. Além disso, quando falamos em religiões judaico-cristãs, cujas diretrizes se baseiam em interpretações bíblicas, ambas as ideias parecem indissociáveis. Infelizmente, isso é fonte de angústia para muitos, o que faz surgir igrejas inclusivas, grupos “contemporâneos” e dissidências em geral, na tentativa de corrigir séculos de perseguição. Será que é válido?

As religiões falam em “livre arbítrio”, mas qualquer desvio ao que é pregado garante a “danação eterna” e tentar dialogar com isso fica impossível. Podemos criar mil grupos liberais que estaremos apenas quebrando as regras e no fim das contas a Igreja nem está errada nesse ponto, uma vez que ela é um “clubinho”, que pode ditar as próprias normas.  Qualquer um que faça parte de uma organização deve ser livre para questioná-la, tentando mudar pensamentos e abrir um diálogo, já que é a forma que muitos grupos encontram para evoluir e corrigir erros,  o que é fundamental para que sigam existindo. O que acontece é que a Igreja é totalitária e por isso está morrendo.

Para o Mundo Ocidental atual, essa postura “controlamos tudo que vocês fazem” simplesmente não é aceitável. Até no caso dos Estados Unidos hey guys, big fan here, please don’t delete my site deu problema! Para a Igreja não basta que você faça caridade ou vá à missa, tem que dar dinheiro o seu íntimo também deve estar sob controle. Isso entra em choque com uma das coisas mais básicas do Capitalismo, que é a satisfação de desejos mediante o consumo, e é aí que começa a briga.

Não que ajoelhar para chupar ou rezar estejam necessariamente em conflito, está aí o próprio catolicismo e seus anos (ou ânus) de História para mostrar que é possível, só é preciso tomar cuidado com as crianças. Mas se pensarmos bem, não é lá muito ético, né? Se você não concorda com “as regras do clube” ou se ele te considera um “condenado maldito”, não seria mais honesto pedir pra sair? Não é a instituição que vai mudar por você, logo não faz muito sentido ficar inventando maneiras de “roubar no combinado”, por mais que hoje em dia possamos ser perdoados na velocidade de um tweet!

A queda de conceitos arcaicos é inevitável, mas antes dela veremos uma radicalização ainda maior dos mesmos, com os conservadores se sentindo acuados. Eles estão gritando mais alto, com maior fúria, como lobos presos numa armadilha, mas são os gritos que precedem a morte, basta observar. Alguns dirão que esse texto é intolerante, mas ele só diz que para sobreviver no mundo contemporâneo, a Igreja deve se modernizar. Como ela não parece disposta, mesmo com eventos milionários “para jovens” e “papas do povo”, pelo menos uma das coisas pregadas é certa: o fim está próximo!

Infelizmente, assumir-se homossexual ainda representa um rompimento com o padrão. Estamos vivendo um momento muito singular, no mundo todo, referente às lutas por direitos gays. A utopia de uma sociedade igualitária vem sendo conquistada a cada pequena vitória, apesar dos “Felicianos” da vida. Mesmo que demore algum tempo, chegará o dia em que ser gay não terá nada demais e poderemos nos livrar do “rótulo”. Não é hoje e nem vai ser amanhã, mas conforme avançamos como sociedade, é natural que nossa posição quanto à religião mude com isso.

O conforto pessoal que as religiões oferecem é um bálsamo para qualquer ferida, e por isso mesmo que este é um osso tão difícil de largar. O problema é que muitas dessas feridas foram causadas pela própria religião, e ninguém aguenta um “morde-assopra”. Os prejuízos sociais ao coletivo são muito maiores, ainda mais quando essas doutrinas ameaçam a política, e também por isso não há espaço para elas onde o pensamento é livre. Dói, demora, confunde e às vezes nos coloca contra as coisas e pessoas que mais amamos, mas é só fazendo mais essa ruptura que assumimos plena responsabilidade sobre a nossa liberdade.

É possível ser gay e ser religioso? Sim. Talvez chegue o dia em que não seja, mas hoje ainda é. O que não faz sentido é tentar “forçar a barra” contra doutrinas estabelecidas, que estão há milênios fechando os olhos ou descendo o chicote sobre nós. No caso, vale mais acreditar numa “energia” ou se apegar somente a conceitos-chave como “amai-vos uns aos outros”, uma vez que eles são geralmente mais fortes fora (e longe) dos templos. Irônico, não?

Permita-se. Seja livre, e use camisinha. Apesar do Papa proibir, é fabuloso!

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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