It’s O.K to be a boy!

It’s O.K to be a boy!

Já disse Madonnão – chupinhando de “O Jardim de Cimento” – que “garotas podem usar jeans e cortar o cabelo curtinho porque é O.K ser um menino, mas que para um menino, parecer uma garota é degradante”. Nessa semana, tivemos um exemplo disso quando as redes sociais se encheram de comentários sobre Tereza Brant, esse lindo da foto.

O que chamou atenção foi seu sucesso, já que sua aparência masculina desanuviou os limites de gênero, revelando a enorme curiosidade do mainstream sobre o assunto. Ela não quer ser homem, exceto pela aparência e nem mudar de nome. Já namorou meninos, mas hoje prefere meninas, fazendo sucesso entre todos, ao arrancar declarações do tipo “por você eu viraria lésbica” de suas fãs adolescentes.

É um caso maravilhoso porque ela não quer – e não precisa – se enquadrar em nenhum dos rótulos existentes. Nem é necessariamente uma mulher lésbica e nem um homem transgênero, mas simplesmente Tereza. Uma pessoa que quer ter uma aparência masculina, sem precisar agir social e sexualmente “feito homem”. Melhor ainda, faz com que aqueles que se colocaram nessas “caixinhas sexuais” ousem pensar um pouco fora desses limites, admitindo que essas escolhas não precisam ser tratadas como leis. Não só as meninas que admitiram a possibilidade de uma relação lésbica com Tereza, assim como muitos homens gays disseram que se tornariam “héteros” com ela. Claro, o que motivou tais comentários foi a aparência masculina e ainda por cima dentro de um padrão estético socialmente aceito. Mesmo assim é algo inovador. Meio que sem querer, o “Caso Tereza” comprova que a sexualidade é uma coisa muito mais fluída do que admitimos.

O outro lado da questão em um país machista como o Brasil, é pensar como seria a receptividade de um caso contrário, além do tratamento da forma feminina. Tereza poderia ter ficado famosa, também, se fosse uma “mulher fruta” gostosona. Não é necessariamente o “ideal feminino”, mas é uma imagem bastante comercial da mulher, a qual muitas aspiram. Só que dessa maneira os comentários sobre ela seriam outros. Grande parte dos homens simplesmente falaria do peito ou da bunda, mas uma enorme parcela da sociedade, incluindo muitas mulheres, diria se tratar de uma piranha, vagabunda, biscate, etc. Como um homem bonito, Tereza é digna de uma admiração que jamais receberia como mulher.

E se, de repente, estivéssemos falando de um homem com aparência feminina?

Dois casos interessantes são os da ex-BBB Ariadna Thalia e de Roberta Close. Ambas são transgêneros nascidas homens, mas que hoje são reconhecidamente mulheres, tanto em esfera social quanto jurídica. Roberta foi símbolo sexual nos anos 80, mostrando como a sexualidade no Brasil é esquizofrênica, já que de um lado era aclamada por ser linda e inegavelmente desejável enquanto mulher e do outro, era alvo de questionamentos e piadas por ser “travesti”, assim como Ariadna, tão logo ela entrou no BBB. Falava-se tanto do fato de ela ter nascido homem, que houve uma votação online para a Playboy lançar uma edição especial com seu ensaio nua, já que todo mundo queria ver o “resultado da operação”. Recentemente, ela foi notícia ao responder a comentários maliciosos no twitter, dando mais uma prova de como a curiosidade mórbida da nossa sociedade, em relação aos corpos e preferências daqueles à margem dela, é bizarra. Horror e fascínio caminham lado a lado, e assim vamos construindo nossa “política social” sobre o assunto.

Apesar de emblemáticos, esses casos não seriam exatamente o reverso da situação de Tereza, já que ela não se apresenta como transgênero. Teríamos isso se “a notícia da semana” fosse sobre um menino com aparência feminina, tão convincente a ponto de enganar outros homens, e que arrancasse declarações do tipo “por você eu viraria gay” nos comentários da web. Mas isso é mais difícil. A masculinidade é uma construção social muito frágil, que se perde muito facilmente, para que um homem possa admitir o desejo pela figura de outro, ainda que este fosse totalmente feminino. Não daria para fazer isso impunemente.

Aliás, tal caso não seria nem notícia. Essa pessoa seria instantaneamente classificada como travesti ou drag queen, e se dissesse que deseja apenas ter aparência feminina mas se manter legalmente como Pedro ou João, seria acusada pela comunidade de ser mal resolvida, qua-quá, pão com ovo ou passivona. Isso, claro, se não perdesse todos os dentes ou o pulmão pra aprender a não sair por aí enganando macho, circunstância na qual muito provavelmente ainda apareceria alguma alma caridosa para dizer que foi “bem feito”!

Mas claro, it’s O.K to be a boy! E como para ser homem ninguém precisa de um pau, a Tereza é mais homem que muito machão por aí!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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