Só a cabecinha…

Só a cabecinha…

“_ Só a cabecinha”, disse ele. “_ Tá, mas só a cabecinha mesmo, eu nunca fiz isso…”, respondeu Alex. Era verdade, mas talvez o cara nem tenha acreditado. O fato é que pau não tem ombro e por fim, entrou tudo. Doeu, é claro. Mas foi bom. Alex aprendeu a não confiar em outros homens, mas gostou e tinha certeza que repetiria…

Essa frase o marcou e se tornou quase um fetiche. Era uma espécie de “abre-te, sésamo” particular e mesmo sendo uma das coisas mais manjadas do mundo, servia de senha de entrada em buracos e mais buracos de dor e prazer…

Alex era jovem e bonito, não tinha porque se privar de conhecer novas pessoas. Quando ouviu falar em “só a cabecinha” de novo, riu e soltou apenas um “safado” antes de se abrir e sentir o tranco da enfiada completa. Não reclamou, já que essa cafajestagem o excitava. Era um jogo de dominação e sedução, no qual o enganado desejava isso desde o início. E as “palavras mágicas” realmente abriram as portas de um mundo de fantasia…

Esperma, cuspe, suor, sangue, pregas, arranhões, suspiros, bocejos, fedor, luxúria, língua, veias, grosso, fino, cabeludo, duro, mole, babão, grande, pequeno, cabeçudo, cônico, na rua, na chuva, na fazenda, no dark, no motel, no chão, no banheiro, no cinema, engolir, cuspir, arfar, gozar, meter, piscar, rebolar, bater, xingar, beijar, lamber, subir, descer, cabelo, pentelho, virilha, barba, topete, bíceps, iPhone, Grindr, camisinha, bare, fechação, bate-cabelo, pinta, porra, Gaga, lixo, luxo, cueca, marca, droga, feio, bonito, alto, baixo, gordo, magro, preto, rico, branco, pobre, apertado, arrombado, bombado, amigo, inimigo, desconhecido, famoso, grupal, a três, swing, fiel, infiel, bom, ruim, pecado, prazer, vergonha, pau, pinto, pênis, piroca… Cabecinha!

Era como se a vida fosse um labirinto onírico onde todas essas palavras flutuavam, ilustradas por corpos descartáveis que promoviam descargas pulsantes de prazer. A ironia é que terminavam justamente na descarga, geralmente em saquinhos de látex cobertos de merda e sangue. E o tempo passava…

Acho que meu cabelo está meio ralo aqui em cima. Isso é um pentelho branco? Eu não engordei não, essa sunga que é muito apertada e aí parece que alguma coisa está sobrando aqui do lado, hehe… Não, hoje nem vou sair porque bateu aquela preguiça, sabe? Acho que vou baixar um filminho ou escutar um CD, sei lá… Ei amigo, não quer tomar um vinho aqui em casa, falar da vida? Eu tô na seca. Não, não ando muito afim de pegação. Depois de um tempo os caras parecem todos iguais, é esquisito. Tô sem paciência. Vou trocar minha foto de perfil. Antigamente, recebia umas trinta mensagens por dia, fora os cutuques e os fodamigos do WhatsApp, mas agora está escasso, não sei o porquê…

Na verdade, Alex estava sentindo falta de um cafuné. De uma conversa engraçada cortada por beijos, de uma mensagem de boa noite antes de dormir. N’outro dia pintou até um carinha aí, mas depois de duas transas ele sumiu. Não fez falta porque quando Alex sugeriu o combo “pizza e DVD”, ele nunca nem tinha ouvido falar na Audrey Hepburn. Era como se, de repente e sem sentir, Alex tivesse pulado de um grupo para outro. Se antes a maior preocupação era “passar a rôla” no bate-estaca do DJ, agora o lema era “poxa, ninguém quer nada sério”.

Será que a velhice o tinha transformado num chato? Depois de dar pra meio mundo, tinha virado moralista? Não, essas pretensões românticas eram uma prova de amadurecimento, mesmo sendo conceitos impostos pela sociedade e blá blá blá…

Era o tipo de coisa que Alex pensava. Entretanto, o mais curioso é que embora seus interesses tivessem mudado, os lugares para caçá-los ainda eram os mesmos. A boate das bibinhas colocadas, o aplicativo que era uma vitrine de peitos estufados, a sauna que dividia o mundo em barrigudos e michês. Estava difícil encontrar alguém. Talvez fosse o equilíbrio cósmico cobrando o preço pelos anos de putaria…

Bobagem! Pensar assim é que seria moralismo. Alex fez o que fez porque podia e queria. O tempo é que passa, as pessoas mudam e, com isso, as prioridades também. Sexo ainda era muito divertido e poucas coisas eram mais excitantes do que uma nova paquera, ou a possibilidade de descobrir um novo sabor ou revisitar emoções – e posições – com alguém diferente. O que mudara era o foco…

Antes ele queria pau, bunda, boca, jeito de macho. Isso tudo continuava bom, mas hoje queria mais. Queria algo mais importante, difícil de decifrar e que raramente era exposto de cara. Hoje, se escuta um célebre “o quê procura?”, Alex responde apenas… Só a cabecinha!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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