Guia de Sobrevivência Gay – 5 dicas pra ser viado e ainda continuar vivo!

Guia de Sobrevivência Gay – 5 dicas pra ser viado e ainda continuar vivo!

É uma semana fabulosa! Graças à insustentável situação de violência que está vitimando homossexuais em todo o país, teremos uma edição extraordinária de Dando Pinta! Só é uma pena que esta seja provavelmente a última semana de publicação da coluna. Segundo a Folha de São Paulo, dar “pinta” desperta os ímpetos assassinos de criminosos, então estou claramente me colocando em risco ao fazê-lo não uma, mas DUAS vezes na mesma semana! Bem, se eu for espancado até a morte sempre dá pra registrar como suicídio, né?

Provavelmente é inocência da minha parte, mas gosto de acreditar na bondade das pessoas. Até nos casos de homofobia explícita, tento entender que fomos todos criados com esses “valores” e que a solução de verdade só virá quando resolvermos o problema social, independente das punições aos agressores X e Y. Assim sendo, quero crer que a intenção da repórter tenha sido a melhor possível: Evitar novos casos de violência, elaborando uma lista de cuidados que as pessoas podem tomar para se precaver. Mas o escorregão foi feio…

As “estratégias de segurança” em questão são, basicamente, o sonho dourado de uma sociedade homofóbica: Gays separados em grupos e com espaço de circulação limitada e, caso seja impossível não desfilar aos olhos de quem é normal, sem “dar pinta” e muito menos demonstrar afeto. Nota dez em tentar resolver o problema no extremo errado, héin? Vamos brincar de comentar cada uma das dicas e ainda terminar incluindo mais uma? Bora? Já é então, parceiro! **

**Treinando escrever feito homem pra não morrer!

1. Andar em grupos.

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Gata, nós fazemos isso. No dia da parada, o grupo passa de 2 milhões! Mas aí sabe o que acontece? Ao invés de socos, somos atingidos por bombas. E sabe o que é ainda mais legal? Quando – por milagre – o responsável é preso, não dá nem um ano e ele já está na rua dando porrada em negros. Além do que, (ainda) somos cidadãos e (ainda) temos o direito de ir e vir, então por mais divertidos que nossos amigos possam ser, às vezes queremos ou precisamos sair sozinhos.

Das duas, uma: Ou o nível de intolerância está tão alto que não podemos ocupar o mesmo espaço que gente diferente de nós, ou isso é lobby das empresas de delivery querendo fazer todo mundo pedir comida por telefone!

2. Evitar lugares abertos.

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Outra coisa que já fazemos. Se chama sauna boate. Mas sabe como é, às vezes a pessoa precisa de ar. Além disso, mesmo que se vá do metrô direto para o escritório será preciso passar pela rua, não? Eu sei que para o cidadão comum os gays são tipo vampiros chupadores (opa!) do sangue de crianças, mas aí é melhor subverter a lenda mesmo e pensar no Crepúsculo, pois alguns de nós gostam de brilhar ao sol, fazer o quê? As regras não devem ser conflitantes. A primeira nos manda andar em bando, mas está na moda fechar a porta do shopping para grupos grandes ou simplesmente mandar todo mundo ser preso… Não seria mais fácil fazer as pessoas entenderem que o espaço público é – olha só – público?

3. Não dar “pinta”.

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Acredite, não é nossa culpa. O que acontece é que às vezes estamos andando na rua feito pessoas normais e, subitamente, algum rádio ligado toca a música nova da Beyoncé e aí não há como resistir! Em 24 segundos estamos no chão fazendo twerking! É mais forte que a gente!

Vamos esclarecer:

a) Ninguém escolhe ser motivo de chacota ou colocar a vida em risco. Mesmo que a necessidade de ser aceito por um grupo talvez exacerbe um comportamento que já existia, às vezes as pessoas “exageram” porque finalmente se sentem livres.

b) Não existe hierarquia de comportamento. Agir “feito homem” não faz de ninguém melhor, e perseguir o feminino/efeminado é só machismo.

c) Todo mundo é livre para ser e agir como quiser. Você pode até achar feio, mas não poder acabar com a liberdade alheia.

d) Validar discurso de opressão é prejuízo para TODA a sociedade. Mesmo que você esteja em posição privilegiada, é vítima. Quem foram esses “gays machos” que ajudaram na reportagem?

4. Evitar andar de mãos dadas e beijar em locais públicos.

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É aquela história do “orgulho hétero”, né? Deve ser tão difícil se segurar e não sair por aí dando a bunda que é preciso se orgulhar mesmo. Longe de nós provocarmos os outros na rua e sermos culpados do descalabro moral da sociedade! Tudo bem que amarrar alguém num poste é um espetáculo lindo de cidadania, mas gente que se ama fazer carinho já é violência!

5 (Minha Dica) . Mandar todo mundo chupar prego pra ver se vira parafuso!

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Bem, se não está dando para dar pinta em São Paulo, não se arrisque a ser violentado e esfolado em outros cantos do país. Entretanto, isso não significa que você tenha que se esconder, segurar seus “trejeitos” ou tratar seu namorado/a como um “conhecido/a”.

Ninguém precisa virar mais um nas estatísticas, mas fazer o jogo dos opressores só beneficia a eles. Ame, viva, seja livre, tenha orgulho de você! Eu sei que não é fácil quando todo o sistema está jogando contra e usando a violência para sublinhar seus desejos, mas essa é a consequência infeliz da mudança que já está acontecendo. Esse recrudescimento do conservadorismo é o grito de agonia de um animal acuado, que está vendo suas forças serem minadas por seu maior inimigo, o progresso. Nosso momento histórico é de transição e isso é chato, porque um passo à frente é seguido de outros tantos para trás, mas não podemos perder a fé.

Fique alerta. Caso você se veja em alguma situação de insegurança, corra e busque ajuda. Denuncie mesmo se achar que não vai dar em nada. Só não abra mão da sua identidade para fazer um valentão sorrir. Errada é a intolerância, não permita que te façam pensar o contrário.

Não temos que “nos dar ao respeito” negociando direitos que já são de todos.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página!

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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