“A língua, saliva e os dentes”

“A língua, saliva e os dentes”

Mais ou menos um mês nos separa do(s) beijo(s) entre Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano), no final de Amor à vida, beijo esse que há muito tempo vem sendo cobrado pela comunidade LGBT à uma das maiores emissoras de televisão do país. Por conta disso, por ainda estarmos vivendo o regozijo do beijo, que falaremos neste primeiro texto de “O beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues.

Nelson Rodrigues abordou as mais diferentes taras sexuais do ser humano em uma vasta produção escrita, espalhada entre romances, crônicas e peças de teatro, o que o tornou conhecido pela alcunha de “Anjo pornográfico”, como bem o coloca Ruy Castro na biografia que escreveu sobre Nelson, o menino que “via a vida pelo buraco da fechadura”, como ele próprio se definia.

Em “O beijo no asfalto” temos a seguinte situação: Um homem atropelado pede, antes de morrer, um beijo na boca. Tal beijo é pedido a um homem. Um homem casado, que concede esse último pedido ao morto. A partir disso o escândalo se instaura e “intrigas de imprensa, corrupção da polícia, preconceitos sexuais” e a crise da família burguesa são expostos cruamente.

Tudo isso no início da década de 60, quando a peça estreou no Teatro Ginástico do Rio de Janeiro, alguns poucos anos antes de ser deflagrado Golpe Militar de 64, que mergulharia o país na Ditadura.

Contudo, antes que pensemos que é muita coisa por causa de um beijo, mesmo que sendo na década de 60, uma coisa deve ser esclarecida: o beijo sempre foi um símbolo controverso.

Munchembled, em seu “O Orgasmo e o Ocidente” (2007), afirma que o beijo foi reprovado até o final do século XIX, provavelmente em público e nas rodas aristocráticas, haja vista que a maioria dos relatos que se tem dessa época são provenientes de pessoas letradas e documentos oficiais. O beijo era encarado quase como o ato sexual em si e, muitas vezes, assim foi utilizado como metáfora do ato sexual, por conta da união dos corpos e da inserção da língua na boca do outro.

Sabendo disso e entendendo o momento em que se deu a apresentação de “O beijo no asfalto”, bem como o qual se dá o beijo das personagens da novela “Amor à vida”, que podemos começar a formar uma melhor compreensão da importância do ato. Da importância do beijo enquanto manifestação também política.

Sobre personagens gays, sugerimos o texto: A TV Globo e os Gays: A Repressão que traz um pequeno histórico de personagens gays, em novelas da TV Globo.

Quem quiser conhecer essa peça de Nelson Rodrigues, há uma versão em HQ de O Beijo no Asfalto, publicado pela editora Nova Fronteira, em 2007.

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