Atividade paranormal

Atividade paranormal

Outro aplicativo, outro perfil. Será que esse povo não consegue sossegar numa coisa só? É tudo igual. As mesmas pessoas, os mesmos peitos depilados, e a mesma tribal no ombro, às vezes misturada com algum dragão mal pintado descendo para as costas, tipo um cospobre do Shiryu. Tá, né? Se é o único jeito de conhecer alguém…

DandoPintaSloganRoberto tentava se lembrar quantas vezes tinha feito aquilo: entrar num site ou usado o próprio celular para criar um anúncio de si, escolhendo fotos e palavras que poderiam ser mais atraentes para uma parcela maior do público. Qual nick escolheria dessa vez? ParceiroNaEncolha? BrotherDiscreto? MachoLiberal? Bom, ainda bem que não tinha dúvidas em definir sua posição. Era ativo. E isso bastava.

Não que nunca tivesse dado ou até que não tivesse curtido. Teve uma vez que foi espetacular, com aquele casado da academia que ficava fazendo sinal durante o treino, e depois aproveitou quando os dois ficaram sozinhos no vestiário para propor uma brincadeira. O cara era hétero, casado, pai de família… Foi só abrir a boca que o Roberto foi logo virando de costas.

O pessoal reclama que faltam ativos no mercado. Roberto, que é ativo, nunca teve dificuldade para encontrar outros. Uma vez foi num chat – tá, geralmente ele entrava no bate-papo afim de dar mesmo – que pintou uma das suas transas mais surpreendentes: o menino era a maior pintosa, dessas que ele só pegaria no desespero e no anonimato, mas quase virou Roberto do avesso! E rolou mais umas duas vezes, mas aí o carinha preferiu acabar com a festa. Ele estava afim de algo além, e Roberto não toparia. Além de ser muito bichinha, o tal cara era ativo – e ótimo, diga-se de passagem – e ele não era passivo.

De repente, Roberto era um “ativo liberal”. Estava num “momento passivo” porque, sei lá, quando parava para pensar, já estava de quatro. Mas isso não significava que precisasse se rotular de passivo. Esse era o problema: o rótulo. Ele não queria colocar isso no perfil, mas se colocasse que era mais passivo, pensariam automaticamente que era efeminado e pior que isso, só a morte. Era e seria ativo, claro. Macho até embaixo de outro macho. Mas quando acontecia de dar – o que ultimamente era  sempre – não queria ser diminuído por uma escolha. E como perfil de bicha é o mesmo que suicídio ou masoquismo no Grindr, seguiria como ativo.

Roberto era ativo. Não é como se ele estivesse mentindo. Curtia meter. Mas é uma relação de poder, saca? Para alguém meter, outro tem que dar. Quem dá é chamado de passivo, é tratado como submisso. Quem come é o fodão. Mas isso faz sentido? Sexo não é uma troca de prazeres? Por que uma posição é hierarquizada em relação à outra? Na hora de dar, é Roberto quem decide virar e permitir que seu corpo seja invadido pelo do outro. E faz isso por vontade, quando quer. Não há submissão. É dele, para dar a quem quiser! Por acaso esse domínio é repassado – via anal – para o cara que mete? E quando ninguém mete? Quando é só uma “brincadeirinha”, acontece o quê? Ninguém é nada? Sim, porque se todos precisam definir sua identidade pelo que fazem ou não com o pinto, coitados dos caras que só curtem punheta…

Roberto era ativo sim. Ativamente passivo. O que acontece é que não tinha liberdade para assumir o fato e transformar sua preferência em mercadoria, na hora de se anunciar para consumo dos outros. Somos todos forçados a ler desejos e características como rótulos de identidade, ao mesmo tempo em que os organizamos de acordo com nosso juízo de valor, sempre regulado pelo mercado e suas regras machistas.

Não é óbvio, então, que esse e tantos outros Robertos precisem mentir para se sentirem aceitos? E o que piora é que alguns não consigam sequer chamar isso de mentira, e insistam contra toda a lógica que qualquer atividade “menor” – dar pinta, dar bunda – é a exceção e não o hábito? Um “acidente” no currículo de macho? Ah, mas esse tipo de negação é normal e chama mais homem, então vamos seguir com essa política dos sexos!

Está sobrando “ativo” por aí…

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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