Mais que um Lolita para meninas

Mais que um Lolita para meninas

Carol, romance de Patrícia Highsmith, publicado em 1953, sob o pseudônimo de Claire Morgan e que inicialmente tinha por título The price of salt, traz em sua capa (edição da L&PM) a seguinte inscrição: “O romance que inspirou Lolita de Nabokov”. Porém, as únicas similaridades entre as duas obras são, além do nome de mulher em diminutivo, a relação amorosa entre uma pessoa mais velha com uma mais nova e uma viagem por entre as estradas estadunidenses.

A história narra o encontro e o desenrolar do envolvimento amoroso entre Carol Aird e Therese Belivet. Aquela, uma dona de casa suburbana, casada, com uma filha pequena, enquanto a outra uma mulher de dezenove anos, que tem um namorado com o qual não se sente a vontade sexualmente e trabalha como atendente em uma loja de departamentos, em Nova York.

É justamente no trabalho de Therese que o encontro entre as duas mulheres acontece, quando, em época natalina, Carol está escolhendo um presente para sua filha. Após a compra, Therese liga para Carol, um encontro é marcado e, a partir daí, estabelece-se uma constante aproximação entre ambas.

Durante boa parte da narrativa a relação entre ambas é muito mais de cuidado, principalmente por parte Carol, que nos leva quase a pensar em um tratamento de mãe para com filha. A insegurança, como de se esperar, fica por conta de Therese.

Com o passar do tempo e a necessidade de ambas estarem próximas e viverem, de fato, o que sentem, decidem viajar de carro, se hospedando em hotéis de muitas cidades pequenas. E, é em um desses hotéis que acontece a primeira vez entre ambas, de modo bem delicado.

Porém a viagem não é tão tranquila como esperam.

Elas são seguidas por um detetive particular, que fora contrato pelo ex-esposo de Carol e que pretende não permitir que ela continue a ver a filha, já que os atos dela são ‘condenáveis’.

Interessante ver que, Therese não é a primeira relação homoafetiva de Carol, que já teve que abdicar, em outro momento de sua vida, de um relacionamento em nome da família e das aparências.

Contudo, isso não acontecerá novamente, embora haja um pequeno afastamento entre Therese e Carol, a fim de que as coisas se resolvam para Carol, de que Therese amadureça, elas permanecem juntas.

Assim, mais que romance sexual, como o de Nabokov, que explorou os sentimentos e os desejos de um homem branco de meia-idade por uma menina, Carol, vai de encontro ao afetivo, a construção de um relacionamento e de como a vida passa a ser organizada em torno dele, tornando-se assim, o que eu percebo como um romance “delicado”, por justamente conseguir trabalhar esse desenvolvimento de modo bem sólido.

HIGHSMITH, Patrícia. Carol. Tradução de Roberto Grey. Porto Alegre: L&PM, 2006.

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