Orgulho de quê?

Orgulho de quê?

Mais um domingo com a Paulista tomada pelo arco-íris. Guardem suas lampadadas que a avenida é nossa, ahá-uhú! Gays, lésbicas, transexuais, humoristas, políticos, ativistas, little monsters… Todos reunidos no único dia do ano em que nos permitem celebrar a beleza da nossa diversidade, o nosso orgulho. Não seria lindo se todos se sentissem assim?

DandoPintaSloganA cidade fervilhava em pura viadagem. Entre festas e eventos culturais, só na semana do orgulho que seria possível assistir ao show de uma das crias de “RuPaul’s Drag Race”What about Jujubee? – e cruzar com o deputado Jean Wyllys na mesma madrugada, na Bella Paulista, que ainda receberia as drags do Trio Milano e toda sorte de baladeiros para o lanche pré-parada. Entretanto, alguma coisa não se encaixava nesse quadro bonito de aceitação…

Algumas horas depois, a Parada do Orgulho começou. Jean estava lá com outros ativistas, lutando pela aprovação da PL João Nery, a respeito da identidade de gênero. As drag queens também estavam lá, assim como as travestis, com cartazes pedindo respeito e inclusão social. Ao lado delas, a distribuição de preservativos e de informes sobre a prevenção ao HIV. Nos carros, o pedido pelo fim da Homo-lesbo-transfobia. E ainda há gente que acha que a parada não é política!

Ora, a força política está em juntar tanta gente para celebrar nossa sexualidade! Qual é o problema da festa? O que faz a parada “perder o sentido” por ser uma “micareta”? Por acaso a nossa “vocação brasileira para a alegria” só merece ser celebrada durante a Copa? Além disso, a festa não foi sempre uma parte importante das celebrações do orgulho ao redor do mundo? Por que nós insistimos em desqualificar a nossa versão das coisas, como se as de outros países fossem mesmo tão diferentes? No fim das contas, o que faz São Paulo diferir de Amsterdã é o ORGULHO mesmo.

Aqui, parece faltar orgulho. O padrão que é vendido como “gay aceitável”, o gay branco, limpinho e másculo, não desfila com o “circo” da parada. É verdade que algumas pessoas lotam a Paulista apenas para ver as bizarrices e nunca saem decepcionadas. Homens com seios, mulheres barbadas, gordos de coleira, “poc-pocs” de chapinha e cabelo descolorido que lutam pra ficar na grade do show da Wanessa. Todos estavam lá. Esses tipos “que não se dão ao respeito”, que “acabam com a nossa imagem” e que “são uma vergonha”. Esses tipos que são “os culpados por não sermos levados à sério”. Mas olha só, pelo menos eles estavam lá! Pelo menos, eles tiveram coragem de sair de suas casas e, querendo ou não, dar corpo a uma massa que celebra a diversidade e que portanto é extremamente política. E o gay limpinho, onde estava? Será que estava zapeando no Scruff ou no Tinder, enquanto criticava a promiscuidade que a parada promove? Ou estaria finalmente saindo de uma onda muito doida, acordando num canto da The Week? Talvez estivesse em casa, vendo os freaks na televisão e agradecendo por ser tão infinitamente diferente – e melhor – do que eles. Daí pergunto: é disso que devemos nos orgulhar? É desse tipo de atitude?

Hoje eu me orgulho muito de ser gay. Nem sempre foi assim, mas é a minha realidade atual. Esse meu orgulho, no entanto, é de nunca ter devolvido à homossexualidade o tipo de negatividade que me direcionaram por causa dela. Eu nunca culpei a viadagem por ser chamado de viado. A culpa é de quem chama. E como conheço bem a dor que esse tipo de tratamento pode causar, me esforcei bastante para não me colocar na posição de superior agressor. Ah, existem gays que são muito mais efeminados que eu ou muito mais promíscuos ou menos educados? Aos montes! Também há vários que são muito mais cultos e que jamais “levantariam suspeita” sobre sua homossexualidade, já que insistem em pensar nisso como um tipo de vantagem. E aí, quem é melhor do que quem? Não somos todos parte de uma comunidade diversa, que pede justamente que se respeite essa diversidade? Por que parece ser tão difícil?

Ninguém é obrigado a dar pinta ou desfilar em parada, mas todos somos obrigados a respeitar essas pessoas e reconhecer que elas são gente como a gente. Você não precisa desfilar, mas tenha orgulho de quem o faz. Talvez aquela pessoa tenha se arriscado no meio do caminho – se expondo a algo muito pior do que um xingamento ou uma lampadada – e ela fez isso por todos nós. Ah, de repente ela só foi lá se divertir e fazer pegação? Que seja, isso não tem nada de errado. É por causa dessa visibilidade que nós ainda podemos nos esconder em boates e aplicativos depois que a semana do orgulho se passa.

Enquanto seguirmos com o jogo do opressor, sentindo vergonha de nossos semelhantes, não teremos mesmo motivo para orgulho. Teremos apenas – olha só – vergonha!

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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