Eu quero ser Dickie Greenleaf

Eu quero ser Dickie Greenleaf

O Talentoso Ripley, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, por meio do selo Companhia de Bolso, é um romance de Patrícia Highsmith, mesma autora do aqui já comentado romance off-road lésbico Carol.

Publicado pela primeira vez em 1955, O Talentoso, considerado um romance policial, narra a história de Tom, um cara que vive de trambiques e que, certa noite, é procurado pelo Sr. Greenleaf, por este acreditar que Tom e seu filho Dickie são amigos próximos.

Dickie há um tempo se mudara para a Europa, indo viver na litorânea cidade de Mongibello, Itália, e se recusa a retornar aos Estados Unidos, mesmo que seu pai envide todos os esforços para isso. Nem mesmo a doença de sua mãe o demove de sua decisão de manter-se afastado.

Ao procurar Tom, a intenção do Sr. Greenleaf é a de que este consiga convencer Dickie a retornar. Embora Tom só tenha visto Dickie umas poucas vezes, consegue fazer parecer que de fato ele e Dickie são próximos e, tendo todas as despesas pagas, embarca para Mongibello, à procura do jovem Sr. Greenleaf, deixando para trás toda a sua existência e traços de uma vida que ele detesta.

Com uma manobra de aproximação bem executada, logo Tom e Dickie se tornam próximos e passam a conviver em Mongi, também na companhia de Marge, uma americana que tem passado o seu tempo lá e que mantêm uma certa amizade colorida com Dickie.

A relação que vai se construindo entre os rapazes é de proximidade e de distanciamento. Tom parece ter se encantado por Dickie, que, às vezes, até parece demonstrar certo ‘carinho’ pelo outro, embora logo faça isso desaparecer. Assim vai-se criando momentos de sedução doentia.

Que Tom tenha traços afetados e possivelmente seja uma ‘bicha’, como é referido no romance, não se pode discordar, menos ainda de que ele nutra algum tipo de sentimento pela figura de Dickie, sempre descrito como um rapaz bonito, atraente e sedutor.

Contudo, reduzir o que se passa com Ripley a isso é algo que não se deve fazer. O que Tom parece realmente e já há um bom tempo fazer, haja vista que o seu dinheiro está acabando, as coisas com Dickie não vão nada bem e o Sr. Greenleaf tenha dispensado os seus serviços, é de tomar para si o lugar do jovem Dickie, e assim eliminar de vez a possibilidade de um fracassado retorno aos Estados Unidos, à sua vidinha medíocre de trapaças e apartamentos minúsculos e sujos e a busca por atenção de pessoas que ele não suporta.

Tom quer ser Dickie, e leva seu plano ao cabo. Mas assumir a identidade do jovem Greenleaf não será das tarefas mais fáceis, há todos os amigos dele, há Marge, há o pai de Dickie e há ele mesmo enquanto Tom. E assim, na busca por tentar se livrar deles todos, Tom passa a cultivar uma vida cheia de mentiras e improvisos, até que tenha conseguido se livrar de tudo e de todos.

Portanto, para mim, o desejo não é necessariamente só em ter Dickie, mas de sê-lo, de consumi-lo ao máximo, já que ele é amado, querido e tem uma boa vida, justamente o que Tom busca desde que perdeu isso, quando foi obrigado a ir morar com uma tia sua, que o maltratava e, posteriormente, ter fugido para Nova York e ver os seus planos de se tornar um fracasso, além de não te conseguido se ligar de fato a ninguém, afetivamente.

O livro ganhou duas adaptações para o cinema, sendo a primeira com Alain Delon, em 1959, e a segunda com Matt Damon e Jude Law, Tom e Dickie, respectivamente, em 1999.

Sobre a primeira, eu nunca a vi, mas no que se refere a segunda, parece-me dar um pouco mais de ênfase aos desejos e à tensão homoerótica existente entre as personagens, muito embora não seja ao ponto de estabelecer grande distância do que está no texto de Highsmith.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *