Negr@s e a Mídia

Negr@s e a Mídia

A indústria televisiva não sabe lidar com o negro. Há muito se luta para que pudéssemos estar presentes nesse meio de maneira digna, que de inicio pintava pessoas brancas de tinta escura para representar personagens negras, ou seja, onde o preto não podia nem mesmo representar a si mesmo. Atualmente é possível perceber a presença de negras e negros na telinha, esse processo que nos trouxe a televisão tem se dado principalmente na última década, graças ao esforço do movimento negro contra a tentativa de invisibilização midiática do nosso povo.

Em 1969, quando exibiam novelas com atores brancos caracterizados em blackface, lançou-se um dos jornais mais conhecidos, marco do nosso monopólio midiático, o JN, que só em 2002 veio a ter seu primeiro apresentador negro, Heraldo Pereira. Nessa mesma época que Pereira ascendeu a apresentador, negros surgiram em telenovelas com maior frequência, e mais tarde em comerciais de maneira mais evidente. Desde então a sua presença nesses espaços tem aumentado, mesmo que ainda não equiparada com a de branc@s, mas ao invés da indústria televisiva tentar reparar o seu erro histórico de ter invisibilizado, caçoado e excluído o negro desses espaços por tanto tempo, a mesmo passou a usa-lo para perpetuar estereótipos: do preto bandido/violento, d@s negr@s  palhaç@s, fadad@s a comédia e também, serviçal e hiperssexualid@, as vezes ambos num só papel, como em “Sexo e as Negas” que trouxe, mais uma vez, a tona esse debate.

Sim, nesse país, somos nós que fazemos o trabalho braçal, mas não estamos destinados apenas à esses serviços. Sim, nós temos vida sexual e muitos de nós sabem sambar, mas não é esse o foco do nosso existir. Nós também ocupamos outros espaços e não queremos apenas ser a caricatura do que homem branco fez da gente. E apesar de termos nos libertado da escravidão, ainda arcamos com os resquícios desse passado, que por mais que tenha se “sofisticado”: da senzala ao quartinho de empregada e do kilombo à favela,  ainda assim resistimos e estamos ocupando outros espaços. Portanto queremos assistir à representação da nossa pluralidade e o fim desse desserviço!

A situação continua bastante agravante quando passamos do espaço do entretenimento para o da informação, que por mais que sejam diferentes muitas vezes se confundem. Por conta do sensacionalismo de suas matérias, produzidas apenas para vender medo e pisar sobre a situação cotidiana do negro, na televisão aberta podemos encontrar programas explicitamente fascistas, por exemplo, temos o “Policia 24 horas”, que leva para o público a rotina de policiais  em bairros pobres e quase que majoritariamente compostos por negros, de forma tendenciosa, onde a mesma corporação que em cena dá sermão em jovens e prende criminosos, nas estatísticas mata 5 por dia no Brasil, tem matado 111% a mais esse ano, e na maioria dos casos os mortos são jovens, também negros. Sempre muito parciais a produção desses telejornais levam em si também a marca do racismo,  colocando o negro como um sujeito bandido, mesmo quando ele é vitima; como na recente #OcupaSãoJoão, onde 200 famílias de sem teto, idosos, gestantes e trabalhadores ocuparam um prédio que estava vazio há dez anos, e enfrentaram uma reintegração de posse violenta ontem, dia 16. A grande mídia denunciou os ocupantes por vandalismo, e não obstante, deu a entender  que os integrantes da ocupação eram pessoas criminosas. Processo que nos lembra a favela do TeleRJ ou então a Ocupação Pinheirinho.

A grande mídia que acusa e faz caricatura do preto é a mesma que faz vista grossa quanto aos crimes que esse povo sofre, deixa passar o genocídio do povo negro nas favelas e encobre as disparidades  raciais. É televisionada a ação de “vândalos” sem teto, mas não informam que São Paulo é o estado com mais imóveis vazios, sem função alguma. À vista disso reitero a importância de desmonopolizarmos a mídia e de buscarmos sempre narrativas alternativas, que nos incentive a raciocinar e fugir do pensamento irrefletido, que muitas vezes esconde uma ideologia bastante cruel e que nem percebemos reproduzir.

Esse certamente não é um assunto novo, os nossos gigantes da comunicação nunca souberam tratar das minorias. Não consigo enxergar o dia em que os oprimidos irão ser representados sem que essa indústria lucre em cima de suas feridas, mas espero assistir o mundo livre desse pensamento limitado de que negros e outras classes desfavorecidas estão atados a estereótipos. Já chegou a hora em que as minorias possam narrar suas próprias histórias.

“Sinho, sinha
Palavra, pá lavra
na lavra que lava
com sangue, com raiva
navio, fujão, chibata
do campo, da casa, escravo
sem rosa, só cravo
e eu cravo, me travo
não calo, eu falo, já basta, já basta!
Da encosta!
Solução, a proposta, emancipação, empoderamento a resposta
No jongo, na capo, é êa, é nego, é nega
Esquenta? Já chega! Enegreço quem diz:
Pagode, sambinha, cerveja, povo preto feliz
Besteira, glamuriza pobreza, o dono do Banco
Preto esteriotipado, ideologia de branco
Glamuriza pobreza, o racismo é certeza, vem subir a ladeira e tira essa touca
Por trás da cerveja, a dor não é pouca.
A fita é louca e a fita é louca
Preto para na tática, branco na arte plástica
Preto inexistência, branco na ciência
Prisão? Preto tá na roda, enquanto o branco desfila na moda.
Na moda que é foda e não me causa prazer, porque o discurso é: preto tem que morrer.”
–  Poema de Lucas Vitorino

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