Namorado “imperfeito”

Namorado “imperfeito”

Eu já falei aqui sobre como foi a minha experiência com o amor e o HIV. Afirmei que minha vivência não tem importância porque cada pessoa lida com isso de uma forma e portanto o que vai decidir o sucesso de um relacionamento é o tamanho do amor entre as partes, como sempre.

LadoPositivo2Hoje quero retomar esse tema de um jeito preguiçoso, hehe… Pela primeira vez, não vou escrever minha coluna, e isso é completamente intencional. Entendo que diferentes pontos de vista podem servir para abrir novas perspectivas sobre alguns problemas, então quero discutir relacionamento + HIV sob uma ótica que nunca terei: a de um soronegativo.

Eu sei que relacionamentos entre soropositivos não são necessariamente livres de problemas relacionados à doença, mas acho que a maior preocupação nesses debates é referente aos relacionamentos discordantes e a relação com medos e perigos, além dos laços afetivos. Então pedi a um ex-namorado que falasse um pouco sobre como foi viver essa relação e ter o HIV como uma presença constante, quase um “terceiro elemento” da nossa história.

Assim nasceu o texto “Namorado imperfeito”:

Ainda me lembro de quando tomei conhecimento da soropositividade dele. Na verdade, suspeitei que havia algo “a mais” quando o alarme do celular dele tocou e ele não explicou pra que servia quando perguntei. “Bom, ele vai me contar”, foi o que pensei logo depois. E foi o que aconteceu. Na terceira vez que saímos, notei que ele estava um pouco tenso. E quando íamos nos beijar, pediu uma pausa. Ele respirou fundo e finalmente me contou.

Nesse momento, confesso que tive e não tive medo. Naqueles três segundos que duraram a frase “er, sou soropositivo”, passaram-se uns 300 anos de pensamentos na minha mente. Pensei que eu poderia contrair HIV e morrer, que eu poderia morrer na frente dele por causa de alguma doença fatal, que um dos dois poderia morrer na frente por algum acidente, ele nunca desenvolver e vivermos felizes pra sempre, que ele poderia desenvolver todo aquele quadro que se vê em filmes, morrer e eu ser torturado pela tristeza, etc. Foi quando percebi que tinha que responder ao que ele me disse. Ponderei tudo. Analisei tudo. Medi tudo. Resolvi dar uma chance aos meus sentimentos, que já naquele momento eram relativamente fortes. E sorri. Foi o que meu coração permitiu como o mais puro “e daí, qual é o problema?”. E depois de tudo exposto e conversado, nos beijamos.

Claro que nem tudo são flores. No dia seguinte, liguei pra uma amiga enfermeira para me dar orientações a respeito dessa minha nova realidade. A primeira coisa que ela me aconselhou era ir ao infectologista, para saber realmente as precauções que eu deveria ter na hora do sexo. Afinal, vamos combinar: sexo feat. paixão são muito bons, mas há a questão do cuidado também. Foram várias as vezes que deixamos de transar, por mais que o tesão fosse grande, simplesmente pelo fato de não termos camisinha. E os remédios, era praticamente proibido esquecê-los. Quando isso acontecia, logo surgia a preocupação e saíamos de onde estivéssemos para ir buscá-los, o que “matava” qualquer tipo de encontro ou programa que estava programado.

Não era e não é o HIV que o definiu, que definiu a nossa relação  e muito menos os meus sentimentos em relação a ele. Nunca foi o caso. Nem de longe. Acabou porque tinha que acabar. Acabou por uma série de motivos que não vou mencionar aqui. O fato dele ser portador nunca foi nenhum divisor de águas no nosso antigo relacionamento. Ele durou o que tinha que durar, sem nenhuma relação com a soropositividade dele.

Ser soropositivo não é defeito. É um status patológico, assim como diabetes, lupus, hepatite, HPV, etc. Você deixa de se relacionar, de se apaixonar por alguém que tenha alguma das doenças anteriores? Mata seus sentimentos por causa de um preconceito estúpido? Na verdade, o defeito é o preconceito, como sempre. Por isso, o meu conselho pra quem descobriu que a pessoa com quem se relaciona é soropositiva: vale a pena dar uma chance. Você verá que pode ser mais que perfeito. 

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