“Sair do armário” também é sobre Consciência Negra

“Sair do armário” também é sobre Consciência Negra

Nos últimos anos tenho percebido campanhas pró-LGBT, principalmente em vídeo, que trazem em si uma questão bastante delicada – sair do armário. Na primeira vez que entrei em contato com uma campanha dessas, estava na internet procurando conteúdo de auto-ajuda Eu tinha dezesseis anos, haviam se passado dois que fui arrancado do armário e as coisas ainda não tinham melhorado. O vídeo se chamava “It Gets Better” e se tratava de uma campanha contra o suicídio de LGBT. O filme mostra várias pessoas não-hétero contando seu depoimento, suas dúvidas e seus sentimentos e como essas coisas passaram a melhorar depois que se assumiram. A aceitação da família em boa parte dos casos e o sentimento de inserção, de não estar mais excluído, depois de tomar essa medida de se revelar.

Passado um tempo, assisti a reprodução dessa ideia em vídeos nacionais como o documentário “Leve-me pra sair” e “Não gosto de meninos“. No mesmo ritmo de “It Gets Better”, pessoas contavam suas vivências e demonstravam como se assumir lhes foi a saída para muitas adversidades. Esses vídeos me emocionaram, pude perceber um pouco de mim naquelas pessoas, um pouco das minhas dúvidas e inquietações, porém ainda me incomodava, a partir do ponto em que falavam sobre assumir uma identidade perante a sociedade, nossas histórias pareciam absurdamente diferentes. A reação contrária que sofri foi bastante desproporcional com a qual eles sofreram. Nas redes sociais e grupos de militância virtual que faço parte, quando alguém assume sua orientação sexual e recebe um feedback negativo da família as pessoas dão suporte e dizendo “logo as coisas vão melhorar“, quase sempre em um discurso já batido. No entanto, há algo em comum tanto nos vídeos quanto nesses grupos, as pessoas são majoritariamente brancas e aparentam pertencer à classe média.

O movimento LGBT ainda não faz um recorte de cor e de classe, muitas vezes além de não-heterossexual a pessoa é negra e pobre, e evidenciar sua sexualidade no ambiente de periferia é diferente de se assumir no condomínio fechado, sendo classe média. Assim como muitos, não me enquadro no perfil em que a militância LGBT costuma projetar. Por diversas vezes tive que me locomover da periferia até o centro para ir a eventos, as rodas de conversa e lazer com esse foco.

Essa exclusão se estende quando pensamos nas pautas defendidas pelo movimento, muitas vezes concentradas em assuntos acerca do casamento igualitário, enquanto existem pautas mais urgentes que não são debatidas, como abrigos para pessoas LGBT e medidas para que essas pessoas recebam apoio, podendo completar seu percusso escolar. A priori, sou a favor também e prefiro que todos possam assumir sua orientação sexual, mas antes de motivar essa atitude é importante assegurar a proteção destas pessoas. Algo simples, mas imprescindível para muitos jovens abandonados pela família e em situação de rua.

Quando a homofobia se tornou insustentável em minha casa procurei por abrigos e não encontrei. Tive a sorte de amigos poderem me acolher, mas a situação dificultou meus estudos e sem auxílios ou orientação só pude terminar o ensino médio aos dezenove anos. Eu não sou uma exceção, muitos jovens homossexuais, negros e periféricos passam por essa situação e o movimento não chega até eles, não somos contemplados, apesar de compartilharmos da LGBTfobia. Atualmente há apenas um centro de acolhida com espaço LGBT,  que foi inaugurado em São Paulo mês passado, dia dez de outubro, mas não encontrei informação sobre espaços como esse em outros estados.

É importante integrar ao movimento aqueles que estão a margem e enxergar as convergências na luta, senão o produto é esse, uma ação exclusivamente branca, que silencia o pobre e se omite quanto as violências as quais estamos expostos. “Sair do armário” não é um assunto tão breve e simples, ele requer que façamos recortes de cor e classe.

Enegrecer o movimento LGBT é tão necessário quanto trazer para dentro da luta negra a quebra dessa heteronormatividade compulsória. A luta será preta, viada e não compactua com qualquer tipo de preconceito. Sofrer um tipo de opressão não legitima indiferença a outros tipos. A revolução será interseccional ou jamais será!

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