Os putos também amam

Os putos também amam

Estava em …E O Vento Levou, em todos os desenhos da Disney e em meus livros preferidos, além de canções, de propagandas e de novelas. Romeu e Julieta viveram e morreram por esse sentimento em todas as mídias. Ah, o amor… O Amor que vende caixas de chocolate e justifica loucuras, valida laços e até crimes. Uma coisa que é maravilhosa e que também é capaz de nos infernizar.

DandoPintaSloganSerá que existe amor entre os gays?

Claro que sim, porque não existiria? Embora a experiência social da homossexualidade seja muitas vezes marcada por episódios de rejeição, praticamente todos os seres humanos são condicionados a formar – ou desejar formar – laços afetivos. A mãe que protege sua cria, o casal que deseja procriar, a unidade familiar que garante a segurança e o sustento dos indivíduos… São várias as relações que ganham sentido através do que chamamos de Amor.

Quando falamos no ideal de amor romântico, pensamos na emoção descontrolada chamada de paixão e a colorimos com a nobreza e a serenidade que carrega o nome “amor”. Acontece que a vida não é um filme, e construir um relacionamento com alguém não é fácil. Só a paixão não basta para que duas pessoas estranhas, com trajetórias pessoais distintas, consigam reproduzir um modelo de relacionamento que exige compromisso e contato físico constante. We ALL better work, bitches.

Culturalmente, o amor é usado para justificar ou “purificar” coisas condenáveis. Um crime passional continua sendo um crime, mas a gente “entende” que a intensidade do sentimento possa tê-lo provocado. Se falarmos no amor entre homossexuais, há uma escolha política de combate ao preconceito quando dizemos que nossas famílias – e portanto, nossos amores – são iguais aos de qualquer pessoa “normal”. É também uma espécie de propaganda, porque o amor é vendido como um oposto da perversão.

Isso é fabuloso, mas nem todas as relações são iguais.

Em nossa cultura machista, os homens são estimulados a não demonstrar sentimentos. Além disso, uma conduta sexual predatória, que valoriza a quantidade ao invés da qualidade, é a “coisa de garanhão”. Como a identidade gay é definida essencialmente por um desejo e por uma prática sexual, sem ser necessariamente ligada à afetividade, é fácil compreender a dificuldade que alguns homens enfrentam ao tentar manter algum relacionamento.

Em bate-papos informais, o que se escuta é que “os caras não querem nada” e que “o boy do fulano o traiu com sicrano”. O sexo fácil das boates e dos aplicativos também é acusado de banalizar a coisa, e em geral as pessoas duvidam que seja possível encontrar alguém “para algo sério” nesses espaços. Eu pergunto, será que não há nada de errado nessa visão?

Esse tipo de julgamento é homofóbico, pois considera que a homossexualidade seja parte do problema. É como se ela, em si, nos sabotasse. Em nenhum momento, o modelo romântico é questionado como algo inatingível, ou sequer admite-se que algumas pessoas simplesmente não o desejem. É um preconceito moralista, que transforma o sexo em algo sujo, e criminaliza relacionamentos não-tradicionais, justamente em uma época de valorização de escolhas individuais.

Há pessoas que sonham em casar e ter filhos, vivendo uma relação monogâmica até celebrar as bodas de ouro. Isso é lindo e precisa ser garantido por lei. Só que tem gente que prefere relacionamentos abertos, gente que namora a 3 ou a 4, que não gosta de namorar, que casa sem amor, que ama sem casar, que namora, termina e volta, que faz pegação junto do namorado, etc. E isso tudo é lindo também.

“Os putos também amam” porque talvez uma pessoa seja muito sexualizada e por isso tenha dificuldades em agir de determinada maneira, mas não necessariamente é incapaz de formar laços. Um cara pode estar na igreja de manhã e de noite em uma casa de orgias, e nem por isso será mais ou menos digno de acordo com o local em que o encontrarmos. E mesmo quem é assumidamente “puto” pode se comprometer com alguém, da mesma forma que várias pessoas “fiéis” mudam de ideia e acabam pulando a cerca.

O que é uma “putaria” é o preconceito. É muita sacanagem julgar uma pessoa através de uma ótica higienizadora, que não admite a complexidade dos desejos humanos. Amar é respeitar diferenças e celebrar nossa diversidade, e como prega a mamãe Ru, “se não nos amarmos, como vamos amar outra pessoa”?

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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