Cassandra Rios e a denúncia de gaslighting

Cassandra Rios e a denúncia de gaslighting

“Tessa, a gata” é um romance de Cassandra Rios, de quem já resenhamos o “Eu sou uma lésbica” e está sem reedição. O exemplar, por mim adquirido, foi comprado pela Estante Virtual e é uma publicação da editora Hemus, em 1968, tendo 125 páginas.

Antes de começar a falar sobre o livro, gostaria de dar um pequeno aviso sobre compras em sebos, de livros publicados por essas editoras super antigas – muitas que nem estão mais no mercado editorial. É sempre bom perguntar para o vendedor se há algum problema na editoração, como: páginas trocadas, faltantes ou mesmo com problemas na impressão que prejudiquem a leitura do texto, porque, queridos, isso é uma coisa bem comum nessas edições e foi justamente o que aconteceu com a minha deste livro.

No meu caso, os problemas nem foram tão grandes assim, porque a história conseguiu ser bem assimilada e, pra mim, é um charme ainda maior ter uma edição com esses problemas – já que ela acaba se tornando algo único – quando falamos em editoração e mercado editorial brasileiro. Coisas de quem já pensou em trabalhar com pesquisa de livros e bibliotecas.

Enfim, vamos ao romance.

A obra nos apresenta Débora, um secretária de uma grande empresa administrada pelo Dr. Raul, casado com a Sra. Roberta. Logo no início, depois de algumas elucubrações sobre si mesma e sobre o que vem a nos relatar, Débora é chamada à sala de Raul para escrever uma carta, que lhe será ditada, por Roberta. A carta é destinada a Salvador, amante da esposa de Raul.

Depois de alguns desentendimentos acerca da escrita da carta, Roberta e Débora saem da sala de Raul e se dirigem à outra, a fim de produzir uma carta que realmente desse a impressão de que Roberta não queria mais nada com o amante. Ao chegar na sala, Roberta, à queima roupa, pergunta se Débora é lésbica e logo dá em cima dela. Mais um pouco, seria que nem a cena do filme “Assédio Sexual” (1994), aquele com o Michael Douglas e a Demi Moore.

Débora se recusa a fazer sexo com a mulher do chefe, mesmo desejando muito, e sai da sala.

Os dias passam e ela sempre preocupada e alerta sobre as consequências do ocorrido naquele dia, com Roberta. Isso porque, secretária há pouco tempo, tem que se preocupar com as despesas do aluguel e a manutenção de sua vida na cidade de São Paulo.

É nesse ponto que começamos a saber um pouco mais sobre o passado de Débora. Saída de Limeira, após seus tios terem descoberto sua orientação sexual, a menina vai para a cidade de São Paulo. Também ficamos sabendo sobre o grande amor dela, a Tessa, mulher que dá nome ao romance.

Do mesmo jeito que em “Eu sou uma lésbica”, a nossa personagem principal é seduzida por uma mulher mais velha e casada, pertencente ao círculo de amizade dos tios da menina e que, depois, acaba se afastando por questões que estão fora de seu controle.

Desiludida, Débora passa a pular de uma menina para outra, sem muito cuidado, com a intenção de chamar a atenção de Tessa.

Enquanto vamos nos informando sobre o passado de nossa protagonista, ela vai se tornando mais íntima de Roberta, por meio de vários expedientes que esta usa para manter a secretária de seu marido perto de si, até que… Descobrimos que o affair entre as duas mulheres não passa de um jogo de Raul, que obrigou a mulher a seduzir a secretária, mas de quem Roberta não gosta nem um pouco e sente mesmo até pena, como ela diz a um impetuoso Salvador, que invade a mansão de Raul, no Morumbi.

Neste momento também descobrimos que Tessa é irmã de Roberta. Então logo cria-se uma tensão entre as irmãs por causa do envolvimento de ambas com Débora, e desta com Roberta, que planeja matar o marido, de tanto ódio que ela nutre por ele – por conta das coisas que ele a obrigou fazer.

No fim, Débora tem que se decidir para o quê ela dá mais importância: ao amor que ela sente por Tessa ou pela verdade dos acontecimentos os quais ela fez parte, nos levando a um questionamento muito próximo do fim de “Eu sou uma lésbica”, sobre a nossa ingenuidade e os atos que somos capazes de fazer ou esconder por causa do nosso amor.

Um aspecto interessante do romance é que ele não aparenta transcorrer em mais de um mês, é uma coisa ágil. Parecendo brincar, também, com as situações fatídicas do rocambolescas, vistas em muitos romances em seus primórdios.

Ora, que Débora vá trabalhar pro esposo da irmã da mulher por quem ela sempre foi apaixonada e que essa irmã é levada pelo marido a desenvolver uma relação sexual é, no mínimo, bem rocambolesco.

Lembra, em muitos aspectos, algumas situações sexuais de Nelson Rodrigues, embora Cassandra se apresente, sob muitos aspectos, muito menos conservadora com as “taras”, que o nosso então considerado “anjo pornográfico”.

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