O Enredo do meu samba, de Marcelo de Mello

O Enredo do meu samba, de Marcelo de Mello

O Enredo do meu samba: A história de quinze sambas-enredo imortais, do jornalista carioca Marcelo de Mello e publicado pela Editora Record, é o desdobramento de uma série  de reportagens feitas para o jornal O Globo.

Cada um dos quinze textos aborda um samba-enredo que sobreviveu ao tempo, mesmo tendo sido campeão no ano em que concorreu, mostrando duas características dos desfiles carnavalescos do Rio de Janeiro: I – O Carnaval se faz muito mais do que com samba-enredo; e II – A história não é feita só de vencedores.

Isso explica, por exemplo, constar entre os quinze, não só sambas-enredo sem título, como o caso do samba-enredo do qual trata o primeiro texto, referente ao samba “Aquarela Brasileira”, de 1964, apresentado pelo Império Serrano, que naquele no ficou em 9º lugar; mas também mais de um do mesmo ano, como acontece com os anos de 1981, 1982 e 1985.

Porém, se você estiver pensando que, por tratar-se de uma história de sambas enredos isso signifique que cada um dos textos gira em torno de como eles foram compostos, o seu processo de criação enquanto samba-enredo, aviso que os textos estão para além disto. Os capítulos têm como norte o samba escolhido, mas vão além de falar dele; falam do desfile como um todo, das escolas e de seus compositores e carnavalescos, das relações com outras escolas e carnavalescos e compositores, com a mídia e o público, relacionando-os com  carnavais e sambas de outros anos.

Por isso, vamos percebendo as relações que foram se instituindo na história do Carnaval do Rio de Janeiro, entendendo o porquê os nomes de destaque entre carnavalescos das escolas e mesmo a importância e expectativas que se criam a cada ano em cima deles.

Também vamos percebendo, aqui e ali, uma avaliação crítica do modo como o carnaval se realiza, seja por considerações do próprio autor e de alguns de seus entrevistados, como, por exemplo, podemos ver no trecho abaixo:

Zuzuca, nome artístico do capixaba de Cachoeira de Itapemerim Adil de Paula […]. Ao ser entrevistado para este livro, logo de cara lamentou a Falta de carnavalescos como Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Maria Augusta. ‘Antigamente eles sabiam fazer enredos. Hoje tem escola que fala de uma cidade sem história alguma por causa de patrocínio. Por isso, os compositores não têm inspiração’ (p. 42).

Aqui, percebemos não só um claro descontentamento sobre a qualidade do samba produzido nos carnavais atualmente pelas escolas, mas no que o carnaval tem se tornado cada vez mais, uma relação financeira que “doma”, em muitos aspectos, o espetáculo enquanto produção artística proveniente de uma liberdade criadora. Isso se torna mais evidente em uma passagem anterior:

A exigência de escrever bem o enredo é um critério importante e os carnavalescos têm forte influência na decisão. E parceiros com prestígio na escola e capazes de financiar os custos das disputas são tão ou mais importantes do que a inspiração (pp. 37-8).

No entanto, tantas informações acerca os carnavais, às vezes, tornam o texto um tanto saturado em alguns parágrafos, com idas e vindas temporais sobre os carnavalescos, sambas e escolas, o que prejudica um pouco a leitura, mas sem ser algo de fato ruim e que pode ser compreendido por uma pesquisa bem realizada, vide as referências feitas durante o texto a livros, CDs, reportagens; e a qualidade do texto, que além de ter que informar é, de um modo geral, curto, levando-se em consideração cada texto independentemente, mas que vão se entrelaçando um ao outro por meios dessas referências.

Uma pena é as letras dos sambas não constem em nenhum momento do livro, somente um ou outro trecho. Embora alguns consigamos reconhecer, por conta desses trechos, fica muito difícil para um leitor não tão ligado em carnaval e escolas de samba, ou mesmo muito jovem, estabelecer uma imagem da letra com o texto.

Ainda assim, o livro é interessante e gostoso de ler, porque mostra um lado humano do samba, ao apostar nos bastidores e em histórias que não vemos no momento único de sua realização na Avenida do Samba.

O Enredo do meu samba: A história de quinze sambas-enredo imortais, para mim, poderia ser considerado também como: O Enredo do meu Samba: Uma breve história do Carnaval do Rio de Janeiro, 1964 – 1993.

O enredo do meu samba

  O enredo do meu samba
  Autor: Marcelo de Mello
  Gênero: Contos/ Crônicas
  Páginas: 308
  Editora: Record
  Preço: R$ 32,00

 

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