DESEJO CONSTRUÍDO: Produção de Discurso LGBT – parte 2

DESEJO CONSTRUÍDO: Produção de Discurso LGBT – parte 2

É tudo “questão de gosto”, mas os ideais de beleza e de comportamento valorizados por gays são coincidentemente os mesmos propagados em anúncios de cueca e filmes pornô. Além disso, os papéis sexuais e as relações de poder entre as práticas também seguem – ou criam – padrões facilmente identificáveis. Como aquilo que dizemos e divulgamos serve para explicar nossos desejos?

DandoPintaSloganEmbora o movimento LGBT seja socialmente compreendido como uma unidade, ele é bastante heterogêneo. A disputa por aceitação nos coloca como um bloco, em lado oposto à “família tradicional”, mas também segmenta esse arco-íris de diversidade em conflitos de legitimidade, que mais parecem um concurso triste para escolher quem é “o pior do pior”.

Quando falamos especificamente de homens gays, é impossível ignorar a briga entre “másculos” e “efeminados”, no que diz respeito ao desejo e também ao comportamento. Enquanto os primeiros responsabilizam os outros pelo preconceito que enfrentamos, esses acusam os primeiros de propagá-lo. É um debate importante, já que a articulação de nossa “tribo” precisa questionar e entender suas contradições, para minimizar a angústia que todos os LGBT infelizmente ainda estão sujeitos.

Já falei bastante desse tema em outras ocasiões, então quero lembrar que não vejo problema com nenhuma manifestação de desejo ou tipo de comportamento. O que eu considero extremamente problemático é que as pessoas defendam a “natureza” de seus gostos e performances, como se nascêssemos prontos e condenados a certo tipo de classificação. Ninguém precisa se forçar a pegar ninguém – apesar de que tentar “abrir os horizontes” me pareça bastante válido – e muito menos a “forçar a barra” de ser o que não é. O que não dá é para ignorar que existe uma estrutura social que dita o que é “certo” e “errado”, “moral” e “imoral”, “desejável” ou “repulsivo” e assim por diante, afetando diretamente nossas preferências.

Quando falamos em opressão, privilégios e construção social, muitas vezes parece que somos coagidos por uma força maligna e inescapável, sobre a qual não temos poder ou responsabilidade. Não é o caso, pois nosso discurso e nossas atitudes estão o tempo todo alimentando esse “monstro”. Quando dizemos que “não curtimos” alguma coisa – afeminados, negros, gordos, baixos, passivos – estamos contribuindo com o estigma sobre ela. Essa estigmatização, por sua vez, funciona como a “lei” do que é válido ou não, moldando nosso desejo. É um círculo. E é compreensível que tenhamos a ideia de que é algo “natural”, pois não temos controle sobre nossos desejos. É o discurso que o controla, e validamos esse “poder” quando aceitamos e reproduzimos esse discurso, em várias esferas. Ao pensar a questão do “Não sou/Não curto”, é óbvio que a análise seja relacionada ao que aparece em aplicativos, em chats, em perfis e nos comentários nas redes sociais. Entretanto, essa agência de um “discurso formador” também se dá através da representação LGBT na arte e na pornografia.

A crítica ao “estereótipo gay” na TV é pertinente, mas ajuda a marginalizar as pessoas que se encaixam nele. O personagem gay “de humor” reforça a ideia de uma identidade risível, mas também negocia essa rejeição ao desviar a atenção do sexo – que é problemático por causa do estigma da promiscuidade e do “desvio” – e jogar o foco na performance de gênero. É uma representação incompleta, que reforça preconceitos, mas é também uma forma de mostrar que a masculinidade não é inerente à condição de homem. Além do mais, é uma representação da realidade de várias pessoas, o que incomoda aos gays que conseguem agir diferente e temem ser “colocados no mesmo saco”.

O problema, como sempre, está na associação a comportamentos lidos como femininos, o que revela a misoginia e a homofobia que são tão insistentes em nossa cultura machista. O  50 Tons de Cinza pornô hétero enaltece a posição dominante do homem, e no pornô gay parece existir uma tensão sobre esse papel. Os astros, em geral, são enormes homens barbudos com paus gigantescos, e os cenários fictícios envolvem a “conversão de héteros”, o estupro e arquétipos de masculinidade dignos do Village People, como o bombeiro, o mecânico e o policial. E quando um ator ativo finalmente estreia como passivo, a cena tende a mostrar como ele foi dominado por um macho superior e focar em sua cara de dor, já que a excitação vem dessa “masculinidade domada”. Vem a pergunta: qual é o problema?

Ora, não há problema em um desejo. Nosso desejo se manifesta através desse conjunto de informações que vai tecendo nossos gostos, nossas taras e fetiches, que são regulados como legítimos ou ilegítimos pela cultura. De repente, entender a lógica por trás do desejo – se é que essa tarefa é possível – vai permitir que o desfrutemos de maneira completa, sem sentimento de culpa e sem oprimir ninguém.

Arrisco-me a dizer que esse é o desejo de todos. Até mesmo dos que não o reconhecem.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página. O primeiro post dessa série, você pode ler aqui.

Na semana que vem, a série continua com uma análise do papel da mídia na produção do imaginário LGBT. Esse será o tema de um debate no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, na próxima quarta, do qual farei parte. Todas as informações sobre o evento estão disponíveis nesse link e no Facebook.

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A página Sou/Curto Afeminado promove, na semana de combate à homofobia, o I ENCONTRÃO AFEMINADO em várias cidades do país. Você pode conferir a agenda completa (a ser atualizada conforme a confirmação de mais eventos) clicando aqui.

A FABULOSA, nossa label party, está de volta ao Rio de Janeiro no dia 05 de Junho, com mais uma queen do programa RuPaul’s Drag Race. Dessa vez, nossa estrela é a incrível Laganja Estranja, da sexta temporada do reality. Você pode acessar o evento clicando aqui e comprar os ingressos AQUI.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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