Onde está o gênero no cotidiano?

Onde está o gênero no cotidiano?

Este texto pretende questionar: Como o gênero se articula no cotidiano? Como se articulam as verdades sobre o sexo, o gênero, os desejos e os corpos? E pretende ainda perguntar: Onde estão as travestis e transexuais no dia a dia? À luz do dia? Que lugares reservam para nós? Como nos excluem?

transbordando

O cotidiano nos impede de pensar o que está além de nós mesmos. Acordamos, estudamos, trabalhamos, caminhamos, cumprimentamos algumas pessoas, opinamos superficialmente sobre algo etc. Nossa vida se organiza em torno do automatismo do hábito, da educação, da tradição, dos costumes e de tudo aquilo que sempre fazemos. Mas o cotidiano, visto assim, como uma sequência bloco-movimento de ações contínuas e descontínuas não é tão ingênuo quanto parece. De forma alguma! Nosso cotidiano, tal como trilho de um trem é pré-fabricado, construído para que nosso pensar, sentir, agir e desejar caminhem sobre ele. É assim que trilhamos o cotidiano. Entretanto, se o cotidiano é tal qual um trilho pelo qual andamos: Quem o constrói? O que vive além daquele trilho? Há vida fora da nossa forma de existir? Neste texto quero propor uma reflexão sobre os silêncios do cotidiano, sobre as ausências nossas de cada dia.

É comum falarmos sobre presenças. É comum entrarmos em um restaurante e vê-lo lotado, mas raramente nos perguntamos: O que está faltando ali? O que existe no mundo, mas não está aqui? E se não está, por quê? É sobre os bancos vazios nas mesas dos refeitórios que quero falar, ou ainda, sobre os assentos vagos nas universidades, sobre o espaço à mesa de executivos de grandes empresas. Em “Escritura e Diferença”, o filósofo francês Jacques Derrida, nos chama atenção para o não dito. Ele nos esclarece, nesta obra, que algo só pode “ser”, ou existir, em relação ao seu contrário, só podemos ser na diferença. O sentido de algo é dado (no Ocidente), pelo jogo do binário. Pela ausência/presença. Permitindo-me instrumentalizar o que disse Derrida, me pergunto: O que aquilo que não vemos no cotidiano tem a nos dizer?

É fato que tudo aquilo que enxergamos tem algo a nos dizer. Mas e o que não enxergamos, por que não está lá para ser visto?  O cotidiano, como eu já disse, não é apenas um correr, é um trilh0, e como tal, como caminho a percorrer, é delimitado, possui espaço, tempo, qualidades, materialidade, voluntariedade e involuntariedade. O cotidiano é um espaço entrecortado por discursos. Por formas de enxergar o mundo, a realidade, os corpos, o outro, a política, a nação e inúmeras outras lentes.  Podemos não pensar nestes discursos o tempo inteiro, podemos até não pensar nunca neles, mas lá estão, conduzindo nosso caminhar. Capturando nossa forma de olhar para o mundo e nossos corpos. Por exemplo, pensem na quantidade de discursos que são acionados quando vamos a academia? Saúde, beleza, utopias corporais, desejos, sexualidade, noções de corpos desejáveis, relacionamentos, timidez, inadequação,… Ir a academia, circunstância corriqueira na vida de muitas pessoas, é tomada por discursos que capturam-nos por dentro, tomando conta de nossas subjetividades.

Este texto não é sobre todas as ausências do cotidiano. De forma alguma. Minha coluna tem uma temática específica, portanto, este será um texto sobre a ausência das travestis, a ausência das pessoas trans. O assento do restaurante onde a travesti não está sentada, a mesa de executivos de uma empresa onde a travesti está ausente, a cadeira na universidade sob o qual não estamos sentadas. Há no mundo muitas ausências, isso é claro: de negros, de mulheres e de pessoas com deficiência entre algumas. Mas, o recorte deste texto são as pessoas trans.

A transexualidade (ou transgeneridade, como prefiro, uma vez que “sexo” e ” sexualidade” não possuem uma relação direta com a noção de “gênero”) não é pensada ou considerada no cotidiano, ao menos não no cotidiano das pessoas cisgênero. Por que isso? Porque o gênero, ou seja, o ser “homem” ou  ser  “mulher” são dados como naturais, inato, pré-fabricados. Como uma verdade que reside dentro da anatomo-fisiologia ou da genética dos sujeitos (anato-fisiologia e genética essas que desconhecemos, diga-se de passagem). Essas categorias de gênero, não são apenas a “identidade” das pessoas, são representações sexo-semióticas que determinam relações de poder, papéis sociais e profissionais. Espera-se, portanto, que pessoas nascidas com vagina sejam mulheres, pessoas nascidas com pênis, sejam homens, e que pessoas intersexo escolham o que serão dentro desta estrutura binária rígida: homem ou mulher. Desse modo, a transexualidade representa uma subversão da nossa capacidade de entender o cotidiano. Uma pessoa trans, ou uma travesti,  subvertem a taxonomia que costumamos utilizar para classificar e entender o mundo. Confundem os padrões, borram as certezas que temos sobre gênero e também sobre sexualidade, afinal, como será que os homens  cisgêneros e heterossexuais se sentem quando percebem que estão desejando uma travesti? Como ser um homem hétero e desejar alguém que nasceu com pênis? Esse desejo, visto sob o olhar da norma como anômalo, confunde as certezas que temos sobre nós mesmos, confunde as certezas que temos sobre o mundo. Por isso, criam-se mecanismos de afastamento das pessoas trans e travestis do mundo social, do mundo público, do mundo e da pólis. 

A necessidade de manter o mundo “inteligível” e compreensível é que produz a exclusão de tudo aquilo que foge do que é considerado “normal”. De outro modo, seria preciso que as pessoas que colocassem em risco todo o já arraigado sistema de dominação sexo-semiótico ao qual somos condicionados.  Lembro-me do texto do filosofo francês, Michel Foucault, “A História da Loucura na Idade Clássica”, em que ele nos diz que a loucura, naqueles tempos, precisava ser apartada, pois havia ali um saber histérico, que ria loucamente do mundo e das nossas necessidades. Aquela figura, do louco, punha em cheque nossos “valores” de “importância”, “necessidade”, “prioridade” e “civilidade”. O riso do louco era uma melodia enfurecedora para aqueles que não podiam rir quando e como quisessem. Qual mistério essa loucura guardava pra si?  Não sabíamos e jamais poderíamos sabê-lo, então, as sociedade passaram a apartá-los. A considerar aqueles corpos como corpos sem lugar no mundo, pura lieb, vida nua, destituída de humanidade, de cidadania ou direitos. Foucault ainda nos alerta, quando fala sobre a lepra e os leprosários, que “cada tempo teria sua própria lepra”. Ou seja, que cada sociedade, a seu modo, produziria os corpos que deseja afastar, que deseja manter apartado em nome da conservação de uma ordem sexo-semiótica e epistemológica de intelecção do mundo.

Hoje, uma presença que segue sendo apartada é a transexualidade, a travestilidade. Somos confinadas às esquinas da prostituição. Peço novamente, para que veja em seu cotidiano: Quantas travestis você encontra durante o dia? Quantas dão aulas aos seus filhos? (seja na Universidade ou no Ensino Básico)? Quantas são chefes em empresas? Quantas são recepcionistas? Quantas são suas alunas? Se há essa enorme ausência, não é porque nós não existimos. De forma alguma! Toda essa ausência se constitui na nossa exclusão, no transformar-nos em seres abjetos, inumanos e não merecedores da luz do sol.  Até mesmo o desejo, dos nobres homens de família, senhores heterossexuais e casados, até mesmo aquele desejo, que os confundia e confunde, passa a ter lugar: na prostituição dos nossos corpos e na obscuridade do segredo. Da confissão a ser feita depois, no quinto passo de Alcóolicos Anônimos, como se desejar-nos fosse um imenso erro a ser reparado.

Sou uma travesti que sai a luz do dia. E quando passo, por onde passo, com meus 125 kg, 1 metro e 81 de altura, sou como um caminhão que atropelou o trilho do cotidiano das pessoas. Os carros buzinam, frutas são arremessadas, crianças se escondem e algumas até correm. Algumas pessoas atravessam a rua e fogem quando peço alguma informação. Por que? Que tipo de pavor eu causo? Eu, pessoalmente, não aterrorizo ninguém, pelo contrário, acreditem, essas pessoas me causam muito mais medo. Mas a existência de uma pessoa como eu, que bagunça o sistema de poder sexo-semiótico vigente, não deveria estar ali a luz do dia. Atacam-me para que eu me lembre do meu lugar. À margem de tudo e todos.

Certa vez me disseram que a vida imita a arte, isso é clichê, eu sei, também detesto clichês, mas nesse caso é válido. A vida ainda não imitou, mas vai imitar a arte. Houve um tempo, na ficção cinematográfica e literária, que  vampiros não podiam sair a luz do sol, eram seres abjetos e perigosos que viviam apenas a noite, nos cemitérios e nas cercanias da morte. Bem, hoje, eles brilham como diamante na luz do sol, são educadíssimos, sedutores e se apaixonam. Aguardo, ansiosamente, o momento em que nós, travestis e transexuais, brilharemos no sol, e não precisaremos mais correr o risco de morrer à luz do dia. Aguardo pelo crepúsculo dos nossos corpos abjetos.

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