Jesus matou Rafael e vai matar você também!

Jesus matou Rafael e vai matar você também!

Definitivamente, Jesus não é um cara legal. Ele é até meio falso, porque à primeira vista parece ótimo, pode te arranjar algumas coisas – todos já viram um carro com um adesivo de “Foi Jesus que me deu” – e mesmo bens imateriais como “paz de espírito”. Entretanto, é tudo mentira. Todos os dias ele mata, rouba, estupra, calunia… E somos os próximos na lista desse facínora!

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O caso da vez é o do menino Rafael, que foi morto a pauladas e pedradas no Espírito Santo. Um garoto de 14 anos, que segundo a mãe tinha poucos amigos e era muito fechado porque as pessoas caçoavam do jeito dele e de seu sonho de ser estilista. É, Jesus não gosta de meninos estilistas. Ele faz da vida desses meninos um inferno, não importa quantos Marc Jacobs existam por aí.

Ah, mas estou exagerando. Não é porque tivemos mais uma morte por LGBTfobia que isso tem alguma ligação com Jesus, né? Imagina!

Falo em LGBTfobia de propósito. Embora o Rafael provavelmente tenha sido morto por ser gay – e, portanto, tenha sido vítima de homofobia – o caso dele é apenas mais um nas estatísticas de violência que colorem o arco-íris brasileiro com sangue. A ele foi dado um nome, e é bem possível que o motivo torpe faça a investigação policial ser eficiente, mas são incontáveis os casos de travestis e transexuais violentadas – física e psicologicamente – em nossas esquinas e avenidas. Mulheres lésbicas são vítimas de cárcere privado e estupro corretivo, enquanto bissexuais enfrentam o apagamento social e homens gays vivem com medo de circular pelas cidades. A morte nos espreita, sussurrando nas sombras que devemos lembrar do nosso lugar inferior.

É culpa do machismo, do Patriarcado, da LGBTfobia. É culpa dessa estrutura maléfica que parece impossível de destruir, não importa quantos debates, quantos pedidos, protestos, paradas, quantas leis e mortes a gente coloque na roda. E Jesus é parte fundamental dessa estrutura, goste Ele – se é que algum dia existiu – ou não…

A religião pode ser maravilhosa. Sua função de explicar os mistérios do mundo e confortar nossos corações é a mesma da ciência e da magia, seja lá em qual delas se acredite. O problema é o papel doutrinador da religião, que mexe com as emoções para manter as pessoas em nossa engrenagem social. Ela está nos fundamentos da nossa civilização e se transformou em instituição, então é lógico que seus representantes já sabem como utilizá-la para manter sua estrutura de poder.

De fato, talvez Jesus sequer tenha existido. Mas já “voltou”. Ele existe agora porque a quantidade absurda de pessoas que acredita nele e faz coisas em seu nome o torna concreto. As coisas que ele teria feito ou que teria dito são usadas como lei para corroborar toda sorte de ideias, sem nenhum pudor quando há alguma contradição evidente. Jesus justifica atos de amor, de caridade e de abnegação, mas também é usado para alimentar o ódio, limitar liberdades e tomar conta do cu dos outros. É como diz aquela reza assustadora: Ele está no meio de nós!

Para alguns, Jesus é mesmo muito maneiro. Está construindo shopping, está reduzindo a maioridade penal, está invadindo terreiros e até quebrando imagens em igrejas católicas. Jesus está dando muito dinheiro, está pagando jatos particulares e templos faraônicos com pedras importadas. Tudo isento de impostos, claro. Já para outros, Jesus está caçando direitos civis, justificando xingamentos e ataques físicos, atravancando o acesso a tratamentos médicos ou políticas públicas de saúde. Aliás, Jesus anda muito enfiado na nossa política, embora tire o corpo fora falando na laicidade do Estado.

É ridículo alimentar a “guerra” entre LGBT e evangélicos – sem generalizar, já que o problema são os ultraconservadores que utilizam a religião para suportar seus ideais. “LGBT” é uma identidade política e “Cristão” é uma orientação religiosa. São coisas que jamais deveriam se misturar, exceto no caso dos indivíduos LGBT que professam alguma fé e precisam encontrar o equilíbrio entre identidades aparentemente em choque. O problema é outro.

Para o Rafael, a homofobia foi a morte. Para mim, ela pode vir a ser a morte também, mas já é um amargor difícil de engolir por me colocar em risco e me roubar direitos. Depois dos LGBT, quem será o inimigo? Quem será o imoral, aquele digno de ser caçado e morto? A quem vão apontar a ira de “Jesus”, já que sempre tem alguém falando por Ele? Vão rezar por essa morte ou pela minha, ou é mais importante criminalizar uma cruz em um desfile?

No fim das contas o grande problema de Jesus é de Relações Públicas!

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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