Do que é feita uma garota, Caitlin Moran

Do que é feita uma garota, Caitlin Moran

[…] agora descobri a verdade sobre isso: que qualquer mulher pode transar, sempre que quiser. Qualquer mulher. Sempre que quiser. É o maior e mais incrível segredo da Terra. Realmente não importa se você é uma garota gorda que usa uma cartola e fala com sotaque de Wolverhampton (p. 268).

Do que é feita uma garota, de Caitlin Moran e publicado pela Companhia das Letras, é um romance de formação que nos apresenta Johanna Morrigan, uma adolescente de 14 anos, residente de uma região antes próspera da Grã-Bretanha e que, sob o governo de Tatcher  e as decorrentes mudanças nos trabalhos relacionados à indústria, foi abalada por uma crise, levando muitos ao desemprego. É o caso do pai dela, que sustenta, junto com a esposa, a família de cinco filhos com os benefícios do governo e que sonha em voltar à vida de artista (cantor de banda).

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Johanna tem como objetivo beijar e fazer sexo e consome muito das suas noites e tempo ocioso tocando siririca, como ela mesma diz ao longo do romance. Ela não acha possível que ela não seja beijável. Pensa que deve haver alguma coisa de muito errado com o universo para não ter ainda perdido a virgindade.

Contudo, alguns eventos tiram-na um pouco do seu caminho em busca de se tornar uma Aventureira Sexual. Quer dizer, na verdade, eles parecem convergir justamente para os desejos de Johanna. Com o corte de 11% dos benefícios que eles recebem do governo, ela investe ainda mais em sua carreira como crítica musical de uma revista especializada londrina. É como Dolly Wilde, a crítica musical ácida e sarcástica, que ela vai tentando se construir, tentando entender do que ela é feita e das coisas que deseja, verdadeiramente, para si.

O romance tem um ar fresco de humor e sexualidade, nada que tenha me parecido cru demais ou ridículo, muito pelo contrário, me pareceu tão natural em sua apresentação, ainda mais no que se refere às questões de formação de Johanna. Sua preocupação com a família e a convivência com eles, a sua nova vida como Dolly Wilde, sua relação com a própria sexualidade, ainda mais da perspectiva de uma garota que, além de vir da classe operária, ainda tem que lidar com o fato de ser gorda.

Ela lida também com o fato de ser sexual e desejar sê-lo em um mundo machista, ainda mais quando pensamos no seu ambiente de trabalho, no qual ela é a única mulher. Ela tem que gerenciar os seus desejos e se impor em um mundo que a vê como um objeto, como a puta que é ok ser levada para cama, usar como realizadora de fetiches, mas que não é levada a sério enquanto provável namorada.

Isso fica bastante claro na parte em que, conversando com a “ex” de seu atual parceiro fixo, ela descobre não só que eles ainda continuam transando, como que ele conta tudo sobre ela para a outra e que esta desejaria ser também uma Aventureira Sexual. Uma clara distinção entre o que é comumente visto como a  mulher para casar e a mulher para sacanagem.

Do que é feita uma garota é um livro que me impressionou e superou as minhas expectativas nas suas 390 páginas, com todos os sentimentos, confusões e desejos de uma adolescente gorda e pobre, que precisa provar que é capaz de realizar coisas, de sair de onde está.

O livro tem muitas referências a bandas britânicas do final da década de 80 e início dos 90, bem como de filmes, musicais e literatura, de um modo geral.

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