Mal-entendido em Moscou, de Simone de Beauvoir

Mal-entendido em Moscou, de Simone de Beauvoir

O convite é irresistível: um livro inédito no Brasil da Simone de Beauvoir. E logo nas primeiras páginas, Mal-entendido em Moscou justifica o hype, ao apresentar questões que são e serão constantes à existência humana.

Estante2Nesse novo romance, somos apresentados ao casal sexagenário Nicole e André – intelectuais espelhados na própria Simone e no filósofo existencialista Jean-Paul Sartre – e à relação de extrema cumplicidade que os dois desenvolveram no casamento. A viagem à União Soviética acontece para visitar Macha, filha de André, e a presença desse terceiro elemento vai desencadear a série de nuances e reflexões que vão culminar no mal-entendido do título. E vale dizer que a viagem realizada pelos protagonistas do romance foi inspirada pelas viagens periódicas de Beauvoir e de Sartre à antiga URSS.

Embora o casal tenha um filho na França, é a presença dessa mulher mais jovem que lembra Nicole de sua velhice, enquanto faz André refletir sobre seu papel como pai e marido. A Moscou dos anos 1960 os fazem pensar no ideal socialista, na fé que existia na juventude e no fato de que não estarão vivos para assistir à conquista de alguma “utopia revolucionária”, se é que ela é possível.

A história viaja pelos pontos de vista dos três personagens, e a autora faz essa transição muito bem, embora seja impossível dissociar o fato de que ela é representada por Nicole, de forma que os pensamentos da personagem parecem mais vivos.  O pensar sobre o “ser mulher”, tão essencial à obra de Simone, pulsa nas preocupações de Nicole com a idade, o corpo, o amor, o trabalho, a filosofia de sua geração…

Ultrapassando a crise do casal protagonista, Simone de Beauvoir aborda alguns temas mais amplos. As personagens femininas ilustram diferentes aspectos da condição das mulheres: apesar de sua vontade de emancipação e os combates de sua juventude, Nicole, extremamente absorvida pela vida familiar, lamenta a violação de suas ambições. Irene, a noiva do filho, encarna a nova geração que, ao pretender conciliar tudo, não aprofunda nada.

A facilidade e a independência de Macha resulta da igualdade de sexos na União Soviética. O problema de comunicação com o outro percorre todo romance que explora, entretanto, os efeitos amargos do envelhecimento:  desgaste do corpo, renúncia à sexualidade, abandono dos projetos e perda das esperanças. Pensar sobre a idade conduz à se interrogar sobre o Tempo – talvez uma homenagem final à Proust.

A confusão dos personagens frequentemente resulta em um “acento lírico” particularmente envolvente de todas essas meditações. O exagero do “mal-entendido” conduz em um mergulho mais e mais profundo no passado e, eventualmente, leva a um questionamento do próprio sentido da vida humana: ” a ansiedade a sufocará: a ansiedade de existir, bem mais ainda intolerável que o medo de morrer”. Todos estes temas e problemas se encontram extremamente entrelaçados. Macha, guia e intérprete, cuja presença provoca crises e tomadas de consciência, situa-se no centro desta trama.

O romance é curto, mas envolvente, e servirá muito bem para novos leitores que desejam ter contato com a obra da Mme de Beauvoir. Os temas que a transformaram em ícone do feminismo estão ali, mas com a delicadeza que a narrativa pede e o esmero com as palavras que somente uma autora tão delicada conseguiria imprimir.

Publicado pela editora Record, o romance é um convite à mente dessa mulher tão marcante, e também a uma forma de pensar a vida – e o fim dela – com uma sutileza invejável.

Lugar de livro é na Estante, a coluna de literatura d’Os Entendidos.

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