Hétero faz sexo gay? A identidade sexual precisa acabar!

Hétero faz sexo gay? A identidade sexual precisa acabar!

O sexo entre homens é sempre gay? O que faz uma pessoa ser identificada como gay ou hétero é o desejo, a prática ou o auto reconhecimento? Atribuir rótulos é uma mania social, mas alguns deles são acionados pelos indivíduos de acordo com seus interesses em diferentes situações. Isso é bom ou ruim? Qual a solução para essa “batalha das identidades”? E pensar que ainda tem quem ache sexo uma coisa simples!

DandoPintaSlogan“Quase todo mundo pratica sexo homossexual”. A afirmação é de Jane Ward, autora do polêmico livro Not Gay – Sex Between Straight White Men, que estuda as práticas homossexuais – bastante comuns – entre homens socialmente identificados como heterossexuais.

Segundo a autora, o foco nos homens brancos se justifica por ser ele o paradigma da normatividade sexual em nossa cultura. Isso acontece porque às mulheres é permitida – e até estimulada – certa fluidez sexual, enquanto homens negros ficariam “fora do radar” pelo racismo e por seu impacto na hegemonia branca em classes econômicas mais elevadas.

A questão – como sempre – é poder.

As práticas homossexuais são amplamente documentadas na história da humanidade, mas é óbvio que o contexto em que utilizamos as palavras “gay” ou “lésbica” hoje em dia é muito diferente do cenário de milênios atrás. Estamos falando de homossexualidade, mas de algo que vai além da prática. Algo que é usado para definir indivíduos como pertencentes a um segmento de pessoas. Algo que une gente das mais diversas origens e vivências a cada ofensa ou direito negado. Estamos falando de um rótulo que representa movimentos sociais, demandas específicas, situações de vulnerabilidade e discursos de visibilidade. Estamos falando de uma identidade política.

Sempre digo que a heterossexualidade precisa da homossexualidade. É na eleição de algo “errado” que se define o que seria “certo”, e por isso conceituamos as coisas em oposição. Acontece que, já que é assim, a homossexualidade também precisa da heterossexualidade.

Os conservadores gostam de dizer que a política LGBT procurar criar uma classe privilegiada. Ora, é verdade que essa identidade é acionada no debate civil. É preciso lutar por uma legislação que contemple a todos, inclusive aqueles que “fogem à regra” para qual a lei vigente foi formulada. Essa é a luta, e é por isso que ainda precisamos reafirmar nossa identidade. Além disso, ao gritar por ORGULHO nas paradas ou sair do armário para a família, estamos afirmando uma “diferença” que diz apenas que amamos ou que fazemos sexo, ou seja, que somos humanos. Privilegiado é quem não precisa disso. Esse é o ponto de disputa.

É tão importante afirmar-se como hétero porque se assumir gay ainda representa pagar o preço do estigma. O estigma da homossexualidade está na figura da bicha pintosa e promíscua, e por isso mesmo que tantos militantes gays lutam por uma imagem de respeitabilidade que só reforça as nossas já conhecidas brigas internas: a homofobia internalizada que exclui afeminados; a misoginia e a lesbofobia que atingem as mulheres; a bifobia que ridiculariza e invisibiliza bissexuais; e a transfobia que nega direitos e mata as pessoas trans. Essa é a fragmentação na sigla LGBT, mas que é compreensível porque estamos falando de um corpo político e a política se dá nessa briga por legitimidade. A questão é o modelo comum a que todos os LGBT – ou seja, os “desviados” – são comparados, que é o modelo normativo heteressexual. Ou seja, o homem branco hétéro.

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“A saga da bicha irresistível” ou “Por que héteros são fascinados por gays?”

O que sustenta o poder da heterossexualidade masculina?

É lógico que esses homens vão usar de tudo que for possível para evitar o rótulo de “gay”. Quem toparia descer de seu pedestal para levar lampadadas ou ser chamado de viadinho por aí? É mais fácil dizer “pega nada não, só dei uma chupadinha aqui no meu bróder na amizade” do que passar por uma crise de identidade para ser lido socialmente sob um novo rótulo qualquer. Mas claro, essa uma leitura tendenciosa do fenômeno, já que certamente alguns desses caras não fazem isso por maldade ou com consciência do impacto de seus atos.

O que é “ser gay”, para além da política?Para algumas pessoas, o que importa são os relacionamentos afetivos, mas essa visão romântica não é partilhada por todos. Para outros, a resposta está na identificação com a Madonna cultura LGBT, mas isso incluiria pessoas que nunca se envolveram em relações amorosas ou sexuais com outras do mesmo sexo. Para outro grupo, o que interessa são as práticas, então qualquer patolada entre amigos no vestiário já é motivo de suspeita, e para quem é fixado na “interdição anal”, curtir um “fio terra” com a esposa já pode ser uma dor de cabeça. E há ainda quem leve em conta os desejos, um simples pensamento ou dúvida, e para esses “o mundo é gay”.

Então, o que é “ser gay”? Por que ser hétero é aparentemente fácil, basta não ser gay. Mas se é tão difícil definir o que é gay ou não, pelo visto a definição da heterossexualidade também é variável, e é por isso que tanta gente tem medo dessa discussão. É por isso que o respeito às diferenças – o verdadeiro, utópico, aquele que permitiria todo mundo viver em paz – é tão difícil de alcançar. Para chegar nele, seria preciso parar de vigiar o rabo dos outros e deixar de rotular as pessoas. Seria preciso abrir mão de ser visto como “melhor”, como “normal” ou até como “menos pior”. Seria preciso parar de transformar o sexo em marcador principal da identidade de alguém.

Mas no dos outros, é refresco…

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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