“Pesquisa afirma: Gays são mais bonitos, sexualmente ativos e bem-dotados que heterossexuais”

“Pesquisa afirma: Gays são mais bonitos, sexualmente ativos e bem-dotados que heterossexuais”

Gays são bonitos, gays são bacanas, gays são sacanas, gays iPhones são dourados, gays são modernos, gays são espertos, gays são diretos, gays não gostam de dias nublados vaginas,  gays nascem bambas, gays nascem craques (em pegação),  gays tem sotaque (Nhái?), gays são alegres, gays são atentos, gays são tão sexy, gays são tão claros, gays não gostam de sinal fechado travesti.

DandoPintaSloganÉ, não tem pesquisa nenhuma. Pelos menos usei aspas e adaptei a letra da Adriana Calcanhotto. Nem tem boy sarado, nem sexo ou medição metafórica de piroca com os héteros. Não tem dica de como pegar macho ou de como ser ou parecer mais macho, e muito menos anúncio de cruzeiro ou de rave, e nem briga de diva pop. Mas perdoem o clickbait,  porque para ter todas essas coisas o nosso caminho foi longo…

Na semana passada, um amigo veio falar comigo sobre a revolta de Stonewall, por causa de uma foto que tenho no Facebook e que ilustra esse post sobre o tema. Ele se disse surpreso porque não conhecia o “marco inicial” do movimento político LGBT, e comentou que alguns amigos com quem tinha falado sobre o assunto também desconheciam a história – e sua relevância – para nós.

Bem, coloquei “marco inicial” entre aspas porque logicamente os gritos de ORGULHO proferidos em 1969 foram uma consequência de um movimento civil que vinha se formando nos Estados Unidos e no mundo muito antes. Da Inglaterra requintada de Oscar Wilde, passando pela liberal Alemanha pré-nazista, descrita por Christopher Isherwood – e depois cantada por Liza Minelli em Cabaret – , chegando às primeiras associações sociais de homossexuais nos anos 1940 e 1950 e culminando com as pequenas revoltas que deram base a um movimento de resistência e a um senso de unidade, o mítico “primeiro tijolo” do levante de Stonewall foi atirado por inúmeras mãos.

Atualmente, o protagonismo desse evento está no centro de um debate que reflete o racismo e a transfobia tão presentes no movimento gay – já que nesse contexto não se pode utilizar a sigla inclusiva LGBT – e, especialmente, a disputa por espaço e legitimidade no arco-íris da nossa diversidade.

Essa disputa também se revela quando discutimos o “tipo de gay” que seria aceitável, quem são os “indesejáveis” que envergonham o movimento ou não se dão ao respeito, e quando negamos práticas como a da bissexualidade ou questionamos identidades de gênero variadas. É uma guerra que aparece quando vomitamos nossa misoginia afastando as lésbicas da luta, apesar do quanto ficamos em dívida quando elas estiveram ao nosso lado durante o pior momento da epidemia de AIDS nos anos 1980. E o que dizer de quem ridiculariza a imagem do gay afeminado, talvez sem saber que está agindo como a força repressiva da Ditadura militar que assombrou o Brasil? Foi nessa época que começaram a se articular os primeiros movimentos LGBT nacionais, através de grupos como a Turma OK e de jornais como O Lampião da Esquina, resultando no grupo SOMOS – o primeiro grupo político homossexual do país. Isso, enquanto artistas como Rogéria deixavam o país para fugir da perseguição às travestis do teatro e os gays desapareciam dos programas de auditório para “não influenciar as crianças” e “proteger a moral da família”.

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Era a época do surgimento de Ney Matogrosso e dos Dzi Croquettes, e a relação social entre o bofe e a bicha dava lugar ao termo – que coisa – entendido, que espelhava uma maior igualdade nos relacionamentos sexuais e afetivos entre pessoas do mesmo sexo.

Entretenimento e escapismo são maravilhosos. Aliás, necessários. Algumas pessoas bebem, outras dançam nas baladas até suar, fumam, cheiram, viajam – no ácido ou para Buenos Aires – ou fazem compras, enquanto outras fazem sexo com cada uma das figurinhas dos aplicativos, assistem maratonas de filmes cult, acampam na fila de shows, trocam nudes no whats ou preferem jogar ou discutir no Facebook e algumas tantas só querem dormir ou comer pizza. E claro, há quem seja mais trabalhado na eficiência e consiga fazer tudo isso.

Essa não é uma exclusividade gay e nem todo mundo é obrigado a ter interesse em história ou em filosofia, mas somos parte de uma identidade política e um pouco de atenção às nossas questões não faz mal nenhum. Certos estereótipos podem incomodar, mas será que não os reforçamos sem sentir? Será que o nosso comportamento, como grupo, não colabora para manter uma posição hierárquica que nos é desfavorável? Pensar nos títulos, nos textos, nas fotos, nos filmes, nas festas e nas músicas que produzimos e que consumimos é necessário para que se tenha uma vivência plena – e crítica – da nossa cultura.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta toda quarta, aqui em Os Entendidos. Não esqueça de curtir a nossa página.

P.S: A galera do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte deve ter visto que a coluna está militando “na fonte do problema” com um anúncio no aplicativo de relacionamento SCRUFF. Preconceito ninguém curte, né?

P.P.S: Na quinta, atualizarei esse texto com uma análise das estatísticas em relação a outros da coluna. Veremos o quanto um título sexual e a foto de três caras brancos e sarados funciona para direcionar o nosso olhar.

*UPDATE*: O resultado da pesquisa foi tão interessante que será assunto da coluna da próxima semana. Em termos estatísticos, as visualizações não foram significativamente maiores do que as de textos com títulos sérios. O que ocorreu de mais diferente foram as interações quando o texto era compartilhado, com pessoas criticando antes de ler e outras defendendo, etc.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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