É hétero e apoia a causa LGBT? Quedê #SomosTodosViados?

É hétero e apoia a causa LGBT? Quedê #SomosTodosViados?

Dois rapazes – heterossexuais, que fique claro – desfilam de mãos dadas para protestar contra a homofobia. A foto viraliza. Um grupo de rapazes heterossexual vai à escola usando saia, para mostrar apoio a uma colega trans. Nos Estados Unidos, um garoto hétero convida o melhor amigo gay para o baile de formatura e vira notícia. Tudo muito bonito. Seriam sinais de que o mundo está um pouquinho melhor, ou talvez a confirmação amarga de que até na hora de ajudar, a heterossexualidade se confirma como superior?

DandoPintaSloganÉ, esse papo de protagonismo é chato. Recentemente, publicamos um texto falando sobre o assunto aqui no site, mas em relação ao Movimento Negro, e a grande maioria das pessoas – brancas, diga-se de passagem – ficou extremamente ofendida. Aparentemente, é uma opressão muito horrorosa quando um minoria recusa algum apoio, diz “não, obrigado” ou simplesmente reclama seu lugar e pede para ditar os termos de sua luta.

Mas não espero a mesma coisa de nossos amigos heterossexuais.

Não existe uma campanha #SomosTodosViados porque esse é outro tipo de estigma. Embora alguns LGBT possam ser identificados facilmente, esses sinais que “entregam” são definidos socialmente. Um gesto proibido, uma roupa inadequada, uma gíria específica… Não há nada nem tão visível e nem tão comprovadamente “de nascença” como a cor da pele, o que sempre deixa em aberto a possibilidade de que essas pessoas tenham ESCOLHIDO fazer parte desse grupo, ao contrário do que ocorre com os negros. Diga-se de passagem, é por isso que a busca por explicações genéticas da homossexualidade ou mesmo o uso político do discurso “born this way” acontecem. Mas é por isso também que declarar apoio exige um pouco mais de cuidado.

Quando se é negro, se é negro. Todo mundo pode ver. Então o branco que declara apoio à negritude não precisa se isentar dizendo “não sou negro, mas”. Não é preciso deixar claro que o gesto magnânimo de apoio vem de uma parte não interessada, já que isso fica exposto de cara. E ainda que o apoiador possa ter um cônjuge ou um melhor amigo negros, é evidente que nunca terá meios para se transformar em um negro, o que deixa o valor desse apoio ainda mais claro. O que não acontece quando o assunto é homossexualidade.

Nada contra héteros, já chupei vários tenho até amigos que são. Mas não é incrível como uma foto com arco-íris no Facebook ou uma brincadeira de escola ganham força, simplesmente porque alguém disse “não sou gay, mas estou lutando contra a homofobia”? Não é incrível que as travestis que saem todos os dias sem a certeza de que voltarão para casa não sejam capa de revista, ou que jovens gays só virem destaque quando seus corpos espancados são encontrados em matagais? Não é bizarro que pessoas trans fiquem famosas em grupos de discussão na internet, não por suas conquistas, mas pelo teor desesperado de suas cartas de suicídio? E nesse contexto, não é ainda mais chocante que pessoas hétero sejam aclamadas por fazer o que qualquer LGBT faz – ou pior ainda, gostaria de fazer mas não pode porque tem medo – e ainda sentirem a necessidade de frisar que não tem nada com isso, como se estivessem prestando um grande favor?

Não existe #SomosTodosViados porque essa afirmação não tem volta. Mesmo os gays levam anos para conseguir fazê-la. Lutar por essa causa ou declarar apoio é colocar-se sob suspeita. É ter a masculinidade ameaçada, é ver suas amizades sendo vigiadas, “as namoradinhas” contabilizadas, o gosto musical ou o estilo de roupa questionados. É correr o risco de levar uma lampadada por tabela, já que a LGBTfobia não perdoa um carinho entre irmãos, entre pai e filho, ou uma mulher que por acaso tenha traços “masculinos”. Ninguém pergunta orientação sexual antes de descer o cacete, pois o que vale são as aparências. O que vale, o que decide se vamos viver ou morrer, é a imagem negativa, a imagem marginal. Por isso que é tão importante dizer “epa, estou ajudando mas sou hétero”. Afinal, por mais empático que seja, ninguém quer – ou precisa – negociar o próprio pedestal.

Ah, quer dizer então que somos uns ingratos separatistas e preconceituosos, que nunca estão satisfeitos? Não. É ótimo receber ajuda. Entretanto, como diz o ditado, “de boa intenção o inferno está cheio”. O que está em discussão aqui é como as pessoas que efetivamente sofrem com a opressão devem ditar os termos em que a luta será feita. Se assumimos e nos orgulhamos de nossas identidades LGBT, é para jogar na arena política e tentar sanar o dano causado pela heteronormatividade. É a heterossexualidade que se beneficia da nossa “diferença”, e por isso mesmo que ela é sempre a primeira a afirmá-la.

Você, amigo hétero, quer ajudar? Não chamar de viadinho aquele menino mais delicado, ou de repente evitar de quebrar na porrada uma travesti na rua já seria um bom começo. Mas se o objetivo é uma sociedade igualitária, mais justa, que respeita a diversidade, que tal começar a luta livre de rótulos e apoiar não como um “hétero bonzinho”, mas apenas como uma pessoa consciente? Fazer tanta questão de afirmar um lugar que ainda é considerado de superioridade não é muito legal.

E muito ajuda quem não atrapalha…

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

P.S: Eu tinha prometido fazer uma lista de leituras da coluna, indicando alguns livros que podem ser úteis para pensar os temas abordados aqui ou para aprender um pouco da história do movimento LGBT. Por causa do timing do texto de hoje, ficou para semana que vem. Mas olha que legal, vocês podem indicar títulos nos comentários. 🙂

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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