24 livros pra dar pinta e tentar entender o “ser LGBT”

24 livros pra dar pinta e tentar entender o “ser LGBT”

Esse inverno, resolvi fazer algo de diferente. É, hoje a coluna não vai debater tema polêmico, nem perseguir e oprimir quem é privilegiado pela sociedade. Nessa quarta, vou indicar alguns livros para quem ama – ou ama odiar – a Dando Pinta. São títulos que formaram ou me ajudam a embasar algumas das opiniões partilhadas aqui, seja porque concordo com os autores, seja porque discordo. Afinal, não é nesse equilíbrio que formamos aquilo que chamamos de “opinião própria”?

DandoPintaSloganIa fazer uma lista, mas a preguiça não deixou como algumas pessoas pedem posts mais pessoais ou perguntam sobre minha trajetória, usarei os livros para contar um pouco da minha história e assim, revelar a da coluna. Logicamente, a seleção privilegia estudos sociológicos por ser meu campo, mas também porque a questão LGBT é mais amplamente discutida nessa esfera. Então, acho coerente. Alguns dos trabalhos são mais acadêmicos, daquele tipo considerado “leitura difícil” – só Cher sabe se realmente entendi alguma coisa – mas há também alguns mais tranquilos e mesmo uns que servem apenas para ilustrar algumas das coisas abordadas aqui.

De qualquer forma, todos foram úteis de alguma maneira – razão pela qual não estão listados por ordem de importância também. Os títulos e o nome dos autores estão em negrito, com links para compra nos casos dos livros ainda disponíveis em lojas.

DevassosDe cara, o livro mais importante do mundo da lista é Devassos No Paraíso – A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade, de João Silvério Trevisan. Como diz o título, o obra faz um levantamento histórico e crítico da homossexualidade em nosso país, ajudando a entender como o país do carnaval sensualizado é também o campeão em número de agressões LGBTfóbicas e como esse panorama vem mudando. É um livro essencial e delicioso de ler, e que muito provavelmente vai deixar um “gostinho de quero mais” que fará os leitores procurarem os outros da lista…

Entender a formação do pensamento sobre a sexualidade no Brasil e no mundo é parte fundamental dessa busca por um entendimento do “ser LGBT”. Como o discurso da sexualidade acaba por produzir a “vivência homossexual”, somos levados à obra do intelectual francês Michel Foucault – amada ou odiada, a bicha fecha – com sua História da Sexualidade, nos volumes 1(A Vontade de Saber), 2(O Uso dos Prazeres) e 3(O Cuidado de Si). Uma versão super bem humorada de parte dessa história é contada em O Prazer do Sexo – Uma celebração da luxúria, do desejo e do amor na Antiguidade, de Vicki Leon.

Focando no Brasil, os estudos de Richard Parker em Corpos, Prazeres e Paixões e Abaixo do Equador olham para a “moral sexual” brasileira e para a homossexualidade masculina. Essa tensão entre nossa imagem liberal e preconceito também é assunto de Além do Carnaval, de James Green, que organiza com Renan Quinalha o espetacular Ditadura e Homossexualidades – Repressão, Resistência e a busca da verdade, contando um pouco sobre a experiência LGBT nesse episódio tão importante da nossa história. Aliás, uma boa leitura complementar são as páginas do célebre jornal Lampião da Esquina, atualmente disponíveis na internet.

Outro relato interessante sobre a homossexualidade brasileira está em Orgia – Os diários de Tulio Carella, Recife, 1960, que acompanha o professor argentino que descobre os prazeres da pegação na bela cidade nordestina, enquanto analisa todo tecido social da sociedade a que está sendo apresentado.

Voltando à experiência filosófica da homossexualidade, temos Reflexões Sobre a Questão Gay, de Didier Eribon, que fala da construção da subjetividade gay através da marca da exclusão e ainda analisa o que seria nossa “cultura LGBT”.

Uma parte significativa dessa cultura – a liberdade sexual antes da epidemia de AIDS – é o cenário do romance FAGGOTS, de Larry Kramer (autor do sucesso The Normal Heart). Infelizmente o livro não está disponível em português, o que também é o caso de Prayers For Bobby, que ficou famoso pela adaptação televisiva protagonizada por Sigourney Weaver. Não vou dar spoiler, mas ler trechos dos diários de Bobby é morrer um pouco com ele. 🙁

Ainda em inglês, há três livros que não podem ficar de fora. A coletânea Why Are Faggots So Afraid of Faggots, editada por Mattilda Bernstein Sycamore, é “a cara” da Dando Pinta e reúne textos curtos e provocativos sobre vários temas LGBT, com atenção especial para a homofobia internalizada. Workin’ It!, o livro de autoajuda do RuPaul, é divertido e ajuda a entender essa persona pretensamente zen que a “mama” expõe para as câmeras. E Tom of Finland – XXL, de Dian Hanson, é um tijolaço que compila a obra de um dos mais importantes artistas do homoerotismo. Dá para problematizar horrores a fixação em masculinidade, pênis enormes e situações agressivas, mas é interessante perceber essa construção através do tempo, a mudança nos traços dos desenhos etc. E tem texto também.

Agora, contando um pouco da minha história, quero indicar um livro infantil. Menino Brinca de Boneca?, de Marcos Ribeiro, foi o livro que minha mãe me deu na tentativa – inútil – de me fazer desistir de uma Barbie. Acontece que ela não tinha se dado ao trabalho de ler, ou saberia que a história é ótima e livre de preconceitos. Graças ao meu trabalho aqui, tive a oportunidade de dividir uma mesa com o autor em um evento no ano passado, o que foi tão irônico quanto compensador.

Feito HomemA “questão gay” sempre foi importante para mim, e quando estava para me formar em teatro, em 2007, ela apareceu na hora da monografia. Minha orientadora indicou Feito Homem, de Norah Vincent, como um exemplo de introdução bem feita. Entretanto, foi a ideia audaciosa do livro – uma mulher se passando por homem – que me chamou a atenção, e logo quis tentar algo parecido na pesquisa, investigando a construção social da masculinidade. Foi assim que fui apresentado a Judith Butler – que meu trabalho aqui também me levaria a conhecer – e seu clássico Problemas de Gênero, que abriu meus olhos para o caráter performático do gênero e para a teoria Queer.

Uma história obviamente muito mais interessante do que a minha é a da Viagem Solitária de João W. Nery, considerado o primeiro trans homem do Brasil. Outra é aquela relatada por Bruno Bimbi em Casamento Igualitário, que fala das estratégias que levaram à conquista do direito ao casamento igualitário na Argentina.

Tempo Bom, Tempo Ruim, de Jean Wyllys, traz vários textos do único parlamentar assumidamente gay de nosso país, falando das lutas que o cenário político e cultural brasileiro forçam a população a travar.

E por fim, como essa coluna afetou minha vida a ponto de me colocar novamente em uma faculdade, num curso que nunca imaginei amar tanto fazer, preciso indicar alguns dos textos acadêmicos que mexem comigo atualmente e provavelmente vão definir minhas pesquisas futuras: Consumindo lugares, consumindo nos lugares, de Isadora Lins França, que analisa a relação entre o consumo e a identidade gay, e  Sopa de Letrinhas?, de Regina Facchini, que estuda o movimento social e a proliferação de categorias e denominações que nossa disputa de identidades faz surgir.

Um “bônus” em menção especial é O homossexual visto por entendidos, de Carmen Dora Guimarães, que analisa a homossexualidade no Rio de Janeiro dos anos 1970, quando o termo que batiza esse site – entendido – era comum.

É lógico que muitas outras coisas influenciam minha forma de escrita e meus interesses, como a fixação em mulheres fortes que me faz amar …E O Vento Levou – tanto o filme quanto o livro – e Jogos Vorazes, assim como a Mulher Maravilha e a Sailor Moon, além de séries como Sex and the City e Queer As Folk, ou todos os filmes do Xavier Dolan. Isso sem falar nos amigos e nas mensagens e comentários que recebo aqui e no e-mail da coluna.

Na semana que vem volto a falar de maneira mais impessoal, mas não poderia encerrar esse texto sem um agradecimento especial ao meu “pai do coração”, o Dr. Rogério, que me emprestou muitos dos livros listados aqui. Fica a dica que aceito, a título de herança, aqueles que por acaso ainda não consegui comprar. 😀

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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