A cidade LGBT é “fora do meio”!

A cidade LGBT é “fora do meio”!

Pegação na academia, nos banheiros dos shoppings e nos cinemas pornô. Um pedaço colorido da praia e uma rua com bares cool para quem pode pagar. Saunas e lojas de grife, restaurantes metidos à besta e muitas batidas nas boates iluminadas por lasers. É o tal “meio” de que tanta gente diz não fazer parte, nem que seja para dar a ideia de que “estar fora” significa ser um pouco mais macho ou um pouco mais “normal”. E assim, criamos fronteiras em nossos corpos. Assim, construímos nossa cidade paralela.

DandoPintaSloganNós estamos em toda parte. Pagamos impostos como todo mundo, somos filhos, pais, amigos, namorados, irmãos, primos… Estamos em todas as famílias, mesmo que gritem que não podemos formar uma nossa. Estudamos, trabalhamos, andamos de ônibus, de carro, de metrô. Nós andamos a pé pelas mesmas ruas e calçadas que qualquer um, mas sempre com uma sensação de deslocamento.

Ser LGBT é ser um estranho. É ser igual, mas diferente.

Tem uma parte que é divertida. Os bares de sapatão com trilha sonora de jukebox ou – estereótipo? – voz e violão, muita cerveja e aquela neblina de fumaça de cigarro. As festas drag, que fazem novas rainhas surgirem e sumirem na velocidade de uma dublagem da Britney. As praias, as academias e as boates com seu bate-estaca, que servem de cenário para a exposição de corpos cuidadosamente construídos para serem desejáveis, porém raramente alcançáveis. As fotos sem cabeça dos aplicativos, essa “segunda vida” onde reconstruimos nossas histórias como anúncios publicitários. As lojas de perfume com seu cheiro de misturas. Um paraíso arco-íris de aceitação e felicidade calculada, disponível a preços de ocasião para quem consegue comprar a segurança do “gueto” com o suado Pink Money.

No limbo, somos invisíveis. A voz engraçada no serviço de call center, o atendente de cabelo descolorido nas lojas de departamento, a rígida professora de Educação Física, o cabeleireiro que força os braços fazendo uma escova. Somos todos essenciais ao funcionamento da sociedade. Contudo perfeitamente dispensáveis. Ordinários. Duplo sentido intencional.

E claro, há o inferno. O baque surdo de quem é chutado para fora de casa e bate na calçada poeirenta. Os corpos feitos de silicone, indignos de desfilar sob o sol ou ter carteira assinada, mas que valem dinheiro nas vielas onde desfilam carrões. A companhia das baratas e de um papelão para os que vivem no cinza das ruas, não se reconhecendo na imagem colorida do que a Globo entende por “LGBT”.

SOMOS diferentes porque para nós a sexualidade ganha esse status de “carteira de identidade” até mesmo quando escolhemos não “levantar bandeira” ou permanecer “no armário”. Aprendemos que somos diferentes e esse saber nos acompanha, por dentro. Do lado de fora, ele se mostra quando apertamos o passo com medo ou “seguramos a pinta” para não provocar, já que um gesto no lugar errado pode nos custar a vida.

Claro, dá para pegar essa “diferença” e dizer que “somos especiais”. Os gritos de ORGULHO, um desfile sem-vergonha ou mesmo um simples beijo roubado sãos as armas poderosas que cobrem de glitter o nosso corpo político. Entretanto, é preciso perguntar quem tem direito a esse “poder” e onde alguém – talvez uma entidade magnânima da “normalidade” – deixa que ele se manifeste. Ora, ser “bicha lacradora que não desce do salto” entre o táxi e a porta da balada é uma coisa, e precisar conter os gestos para não perder o emprego, é outra. A drag que desfila montada pela portaria de seu prédio vive uma situação, enquanto o rapaz que se maquia com medo dentro do trem, tirando vestido e peruca de uma mochila insuspeita, vive outra. É tudo forte, é tudo vivência, é tudo parte de nossas cores. Margens, fronteiras, pedágios, interdições, morte, vida, beijos, violência…

A “cidade LGBT” é marginal e paralela,  manifestando-se em uma dimensão específica de hipocrisia. Humanos que somos, podemos andar por qualquer lugar. Porém, se estivermos na rua errada, podemos morrer a socos a pontapés. O entardecer que escurece os parques dá cobertura para o sexo clandestino que durante o dia pode ocorrer em lugares que cobram ingresso. A paquera está liberada, mas é preciso acionar o mítico “gaydar” para ter certeza antes de olhar, já que o interesse amoroso na “pessoa errada” pode constrangê-la. Nosso “pecado” é contagioso. Nossos bares, nossa praia, nossa rua e nossas boates são nossos, mas a sensação de segurança oferecida por esses limites cai por terra quando tais lugares são transformados em alvos.

Qual LGBT anda livremente? Por onde? De que jeito? Com que roupa? Existe solução para esse paradoxo de precisar afirmar nossa diferença para lutar por igualdade? Se são os nossos muros que nos protegem, que caminho resta? Fica difícil comprar a ideia bonita de um destino “LGBT Friendly” quando o direito de ir e vir é negociado a cada passo.

Ninguém vive “fora do meio”. Não deixam.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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