Problemas de Gênero – O “livro sagrado” de uma ideologia perseguida…

Problemas de Gênero – O “livro sagrado” de uma ideologia perseguida…

Em 09 de Setembro de 2015, uma plateia atenta ocupava o auditório do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, para ouvir a filósofa norte americana Judith Butler. No palco, ela falava de corpos políticos, de vulnerabilidade e de resistência, enquanto um grupo pequeno – porém raivoso – de pessoas protestava contra ela na calçada. O evento era o 1º Seminário Queer, promovido pela Revista Cult, e Butler foi a convidada principal de uma discussão necessária, que a própria ajudou a levantar. Naquele espaço, ela era uma estrela, mas fora dali estava sendo apontada como “o demônio da ideologia de gênero”. Tudo isso, graças a um livro publicado nos anos 90. Tudo prova dos tais “Problemas de Gênero”.

Estante2Na sua fala, Judith Butler comentou que o Brasil está no mapa da política sexual e que a performatividade discutida por ela em “Problemas de Gênero” agora dá espaço a um pensamento sobre a “precariedade”, uma vez que o pensamento queer vai trabalhar o desvio da norma e problematizar questões como o racismo, a LGBTfobia, o machismo e a exploração.

Enquanto era xingada do lado de fora, a filósofa falava o alinhamento entre amor e desejo, e como uma das grandes dificuldades do debate político está na formação de alianças. A visão do ataque do outro vem do fato de que somos chamados por nomes – não importando de que lado estejamos – em uma relação de combate. É preciso pensar em uma política que esteja inserida em nossos corpos, não apenas em nossas leis.

O seminário foi alvo de críticas pela falta de representantes queer em lugares de fala, mas até essa percepção é intimamente ligada à ideia da performatividade dos corpos, uma vez que é na relação com o outro que nos percebemos – ou somos catalogados – como parte de um grupo específico. A linguagem nos afeta mesmo antes do nascimento, construindo os sujeitos que seremos – em constante reformulação – durante toda a vida.

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A acusação de que Judith Butler e a “ideologia de gênero” querem “corromper as crianças” espelha os fantasmas discursivos utilizados para demonizar correntes religiosas e/ou políticas, como se algum agente maligno estivesse à espreita para derrubar o status quo. A questão é que o debate de gênero já acontece todos os dias, simplesmente porque já nascemos em uma sociedade generificada que nos obriga a decidir como será nossa performance o tempo todo. Evitar que se pense nisso em um ambiente como a escola, por exemplo, é um erro porque as crianças já são confrontadas com essa vivência o tempo todo. E o pior, sem uma reflexão sobre.

Nesse contexto, é essa ideia massacrante de uma identidade fechada na oposição “homem/mulher” que é uma violência, e apenas através da subversão dessas identidades e do entendimento da pluralidade de vivências de que a experiência humana é capaz é que se pode pensar em uma estratégia política de libertação dos corpos, de promoção da igualdade e do fim das opressões.

Estrela solitária

judith_butler_teoria_queer_seminario_sao_pauloPerguntei à Judith Butler se seu status de celebridade no mundo acadêmico e nas discussões que eram tema daquele seminário afeta sua obra de alguma forma. Será que as pessoas agora tinham algum pudor em discordar dela ou, ao contrário, tinham mais sede de negar suas ideias? Como ela se sente em relação a esse tipo de atenção?

A resposta: sozinha.

Ela disse que é um pouco assustador como as coisas tomam proporções globais, mas que não faz sentido tentar se alimentar disso porque em um dia te colocam para cima, no outro, para baixo, e frequentemente fazem isso toda hora num único dia também. Assim, ela segue fazendo seu trabalho e direcionando seu olhar para as questões que a estimulam, mas que fica feliz em perceber que esse alcance, esse poder que sua fama empresta a seus livros, permite que muitas pessoas sejam ajudadas por seus pensamentos.

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“Problemas de Gênero” está com uma nova edição nacional, pela editora Civilização Brasileira, com 287 páginas e preço médio de R$ 37,00. O título faz parte da lista de 24 livros essenciais da coluna “Dando Pinta” e é absolutamente fundamental para quem deseja entender um pouco mais sobre a teoria queer.

Lugar de livro é na Estante, a coluna literária d’Os Entendidos. Não esqueça de curtir a nossa página, que nesse feriado vai sortear dois livros de temática LGBT do aclamado escritor David Levithan. Você pode saber tudo sobre a promoção clicando aqui.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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