Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer, de Cláudia Lemes

Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer, de Cláudia Lemes

O mais novo lançamento da Editora Empíreo: Eu vejo Kate, de Cláudia Lemes, um romance policial, thriller, de suspense que não te deixa ficar afastado dele muito tempo sem causar um certo grau de ansiedade, que nem é aplacada quando você o está lendo, já que você quer continuar sabendo o que acontece com a Kate e todos os assassinatos que começam a acontecer ao seu redor, quando ela começa a escrever a biografia de um serial killer que recentemente recebeu a injeção letal da pena de morte no estado da Flórida, nos Estados Unidos.

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Sim, eu gostei do livro. Ele tem uma agilidade de escrita, nos dando a sensação de estarmos em uma corrida constante pra descobrir o que está acontecendo, mesmo em partes um pouco mais calmas. Tudo construído por meio de recursos como frases curtas. Os capítulos em sua maioria também são curtos e alternam entre as personagens Kate, a escritora e protagonista, Bardel, o serial killer morto e Ryan, um agente do FBI; possibilitando assim, não só perspectivas distintas, mas com que não se caísse em um egocentrismo da personagem e dos seus problemas.

Aliás, esse recurso me parece bem mais interessante que narradores em 3ª pessoa, já que possibilitam um conhecimento geral e abrangente, que esse tipo de narrador proporciona, mas dá agilidade e forma uma espécie de quebra-cabeças, em que os narradores são peças e jogadores que comporão todo o cenário narrativo.

Eu vejo Kate é um romance que pertence à tradição do que se tem produzido sobre serial killers. Traz uma sensação de lar para quem acompanha minimamente publicações e seriados do tipo, porém é muito original. É o sentimento de lar em um lar novo. Não tem o cheiro ainda do café, mas te faz senti-lo na estrutura da casa.

Acredito que o motivo para esse tipo de sensação envolvendo o livro se deva pelo fato de a personagem ser uma mulher a protagonista, que de muitas maneiras tenta fazer valer a sua vontade em um mundo em que homens dominam, mesmo quando subordinados a mulheres.

Essa força que Kate puxa de si durante todo o livro, não só no que se refere ao seu comportamento diante do que tem que escrever e pelas situações que passa por causa disso, bem como e principalmente o seus desejos enquanto mulher, é o que torna pra mim esse livro ainda mais interessante.

Nele percebemos claramente o modo como a nossa sociedade é construída sobre valores machistas, de que é a mulher a responsável se o homem a trai, de que é a mulher é responsável por ser deixada, por ser estuprada.

É desconcertante alguns diálogos e trechos incríveis escritos por Cláudia em relação a postura do homem macho diante da mulher:

Sim, nós odiamos mulheres, porque elas são, sem dúvida, o elo mais fraco na corrente, a causa de todo o mal no mundo, a razão pela qual todos nos sofremos muito. […] Mulheres são fáceis, elas merecem, e elas são deliciosas de foder. Elas choram, imploram, e tentam negociar com você. É impressionante a rapidez com que se acalmam e se deixam serem estupradas. É patético o quão pouco elas lutam quando chega a hora. (p. 208)

O elo mais fraco da corrente, ou seja, aquele que não merece respeito por enfraquecer o conjunto. A causa de todo o mal no mundo, visão bíblica da queda do homem do paraíso, mas que no depoimento dessa personagem em questão evidencia outras coisas, todas relacionadas à sua infância e ao papel que as mulheres tiveram nela, que não era o esperado pelo modelo de papéis de gênero da nossa sociedade.

É ainda na questão do papel de gênero que o trecho a seguir se insere, ao mostrar que a mulher deve ser punida não apenas por ser fraca, mas por tentar ser forte, quando a personagem grita com uma mulher sobre a imagem que ela cria para si e para os que estão ao redor:

Você não é a fodona, durona, “eu moro sozinha” e “eu não preciso de nenhum homem para cuidar de mim” e “eu sou a favor do direito de escolha”… “e eu ganho dinheiro”… (p. 272)

É simplesmente impressionante ler essas coisas e tantas outras espalhadas pela história que vão mostrando como a mulher ainda é vista como propriedade do homem, seja ele quem for. É impressionante conseguir parar para discutir e pensar tudo isso durante a narrativa, durante o processo de tentar entender o que está acontecendo e de descobrir quem anda imitando os crimes de Bardel. É impressionante e ao mesmo tempo incrível, emocionante.

Uma leitura super recomendada. Pena que o ENEM já foi, né?!

No que se refere ao trabalho editorial, o livro apresenta alguns problemas de preparação e revisão, para mim foi um incômodo pequeno que não chegou a prejudicar o ritmo da leitura. Ponto mega positivo pro material usado na composição do volume, que o torna leve e maleável sem fazer vincos na lombada ou deixar o livro aberto, depois de certo tempo de leitura contínua.

No momento o livro pode ser adquirido na loja virtual da Editora: http://loja.editoraempireo.com.br/

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