Como os aplicativos revelam nossos preconceitos e fetiches?

Como os aplicativos revelam nossos preconceitos e fetiches?

Ah, os aplicativos… Esses “espelhos mágicos” capazes de revelar os gays ao nosso redor, inclusive respondendo se existe alguém mais bonito, mais sarado, mais puto, mais engraçado, mais, mais… MAIS. Sempre existe. Em um menu de corpos e frases feitas, a produção sobre o que utilizamos para nos vender acaba por revelar o que amamos e o que odiamos em nós mesmos. E isso é fascinante!

DandoPintaSloganRecentemente, fiz uma experiência antropológica com os aplicativos. Nada muito sério, se um dia quiser expandir para uma pesquisa de verdade, precisarei definir uma metodologia e me fundamentar numa base teórica específica. Mas basicamente, fui mudando textos e fotos no perfil para observar as diferentes formas de assédio, e os resultados – nada surpreendentes – confirmaram aquilo que a Kátia cega já tinha ensinado: não está sendo fácil!

Normalmente, meu perfil exibe meu nome e meu rosto, com uma frase contra a homofobia. Não ignoro que atenda a alguns padrões, mas em geral recebo poucas mensagens e quase sempre a abordagem é respeitosa, com alguma saudação e perguntas genéricas. Vez ou outra, alguém se revolta com o texto e fala sobre como a militância é chata e aproveita para se declarar homofóbico, talvez esperando que eu vá discutir sobre isso, não sei. De qualquer forma, sempre tem pelo menos uma mensagem por dia.

Comecei a experiência apagando meu nome e mantendo a frase, e então coloquei a foto de um peito negro e sarado. De cara, houve aumento no número de mensagens, com muitas perguntando se eu era ativo. Para insistir no estereótipo racista, deletei a frase e coloquei como nome RASGADOR23cm, o que resultou em um aumento de mais de 70% nas mensagens, com teor muito mais explícito, e se manteve quando troquei a foto pela de um corpo negro magro e mantive o título. Depois, ainda com essa última foto, troquei o apelido para RAPAZ NEGRO e vi o número de mensagens cair vertiginosamente, embora algumas ainda perguntassem sobre um possível pau grande.

Na segunda etapa, coloquei a foto (do queixo para baixo) de um homem branco gordo e o título GORDINHO CENTRO. Não quis mandar mensagem para ninguém, esperando para ver o tipo de cantada espontânea que cada tipo receberia, e levou muito tempo até que me chegassem duas mensagens nesse perfil. Uma era puxando conversa normalmente, e vinha de um rapaz também identificado como gordinho. A outra, bastante chocante, dizia que “o problema dos aplicativos é esse, que qualquer um acha que pode botar foto sem camisa”. Achei chocante, não porque não soubesse do que as pessoas são capazes, mas porque foi uma mensagem espontânea. Eu nem tinha ido perguntar nada ao cara, e no entanto ele se sentiu incomodado com aquela imagem ali, naquele espaço, a ponto de ir até o perfil e mandar uma mensagem ofensiva.

Por fim, chamei de CARA LEGAL o perfil com a foto de um cara barbudo e totalmente dentro dos padrões estéticos endeusados que conhecemos, mas vestido, sem parecer se preocupar em exibir o corpo notavelmente “em forma”. De novo uma chuva de mensagens, mas agora com elogios tipo “lindo” e aquelas perguntas “vai que cola” e hipermasculinizadas como “coé, blz, firmeza”. Algumas cantadas vinham com “currículo completo”, já dizendo preferências, gostos e até telefone, mas o engraçado foi quando mudei o título para AFEMINADO e escrevi meia dúzia de frases militantes e o tom das mensagens mudou para a incredulidade. Um rapaz chegou a escrever “não é possível que UM CARA COMO VOCÊ seja afeminado”.

Aí eu encerrei a pesquisa. Se fosse para fazer algo sério, precisaria investigar muitos outros perfis durante muito mais tempo. Colocar em letras garrafais ser negro, ser pobre, ser feio, ser soropositivo, ter alguma necessidade especial, ser rico, etc. De repente fica a ideia para um projeto futuro, não sei. Não me interessa, aqui, tentar culpabilizar as pessoas que me escreveram enquanto utilizava esses perfis, simplesmente porque os desejos, os fetiches e os preconceitos demonstrados por elas são sintomas de um quadro maior. De uma estrutura social.

Falo bastante sobre estrutura de opressão quando estou analisando o papel da homossexualidade em relação à heterossexualidade. É algo que me fascina. Mas quando o olhar é direcionado para o nosso subgrupo e para a reprodução de valores e normatividades dentro dele, é interessante notar como os “gostos” funcionam para dizer o que é bom e o que é ruim.

Acho os aplicativos maravilhosos porque se antigamente a busca por parceiros se dava em becos e boates, agora pode acontecer na palma da mão. Entretanto, nossos espaços de “liberdade” ainda estão condicionados às relações de poder que transformam a homossexualidade – e certos tipos de práticas dentro dela – em um problema. Preconceitos são assumidos e naturalizados sem cerimônia, e alguns tipos são endeusados enquanto outros são rechaçados. Existe a competição e uma certa tensão sobre o tipo de coisa que pode e que não pode aparecer nos perfis porque o desejo do outro – ou seja, a validação – é negociada nos termos da sociedade normativa. Por que ficamos preocupados em atender a essas demandas se somos nós mesmos que as criamos? Não seria possível atacá-las e eventualmente conseguir que as pessoas “se vendessem” como são, ao invés de como imaginam que os outros esperam que elas sejam?

Há quem critique o uso de aplicativos porque “o povo só quer sexo”. Essa já é outra conversa, porque dá para falar sobre construção da masculinidade e sexualização da identidade gay, mas se os aplicativos funcionam como um menu de corpos e prazeres disponíveis, não está no dedo dos usuários o poder de lembrar que cada um daqueles peitos esconde um coração? Por trás da fachada, mesmo o mais “lindo dos lindos” há de estar apenas buscando quem lhe compre.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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