HIV: sobre dizer ou não dizer

HIV: sobre dizer ou não dizer

É lindo o discurso no qual a representação de um casal aparece dando vida a seguinte situação: um deles tem HIV e o outro sabe! Isso é lindo, mas temos que levar em consideração que não estamos nos deparando com um “simples” vírus. O HIV é considerado “malvado”, e é lembrando sempre que relações desprotegidas fazem as pessoas roerem as unhas de desespero enquanto aguardam o resultado de exames, vão a um posto de saúde para tomar a PEP ou rezam pela negação possível da positividade. Talvez por isso, é difícil considerar a situação descrita como sincera. O momento de revelar ou não a positividade é outra criminalização da AIDS. LadoPositivo2A descoberta do status positivo é um complexo sistema marcado por estigmas e preconceitos que fazem parte do cotidiano de vidas positivas. Relacionar-se com um soropositivo é um tabu – arrisco-me a classificar dessa forma – histórico, mas que as pessoas fazem questão de atualizar. Medo, angústia e vergonha são poucas, porém marcantes características que formam a mente tanto do portador, bem como dos que descobrem estar se relacionando com uma pessoa HIV positiva.

O HIV como infelizmente sabemos está produzido dentro do campo da promiscuidade, marcado e inscrito nos corpos de pessoas que “escolheram” tal status, por viverem uma vida na permissividade. O vírus muitas das vezes é utilizado como marcador das diferenças, fazendo com que o tempo todo a relação sorodiscordante seja marcada pela condição da pessoa positiva e o fato do companheiro ter aceitado essa condição.

Compreendo que cada caso tem a sua trajetória, mas de alguma forma as pequenas escolhas entre querer ou não querer estar próximo desse “risco” afetam aqueles que viveram a experiência de contar sobre o vírus para um parceiro. A espera, na verdade, é toda uma “estratégia” de negociação da positividade, que vai se manifestar das mais diferentes formas. Nesse jogo entre medo, angústia, às vezes carência e, sobretudo, privar a condição resguardando o que se poderá ouvir, muitas pessoas ficam com medo de revelar um pedaço de si que para tantos será sinônimo da pessoa e também de sinceridade.

Ser sincero ou não? Eu diria que não é questão de sinceridade, porque as relações se dão em equilíbrio. Enquanto o “normal” usa desse status para se autoafirmar e deslegitimar o anormal, o “doente” esconde para não perder tanto nessa relação, e assim vamos vivendo. Não dá para reduzir a prática por parte do sujeito que escolhe não assumir sua positividade a uma “falta de sinceridade”, quando eles podem estar sendo sinceros com os próprios medos. Esconder esse status envolve privar a própria voz, a sua formação enquanto pessoa, a sua imagem. Já que estamos a todo o momento pensando em nós mesmos, nada mais justo do que ser soropositivo e pensar em você na negociação entre dizer ou não sobre a sua condição.

Enquanto a negociação da sorologia ainda for um sacrifício, é mais fácil trabalhar com o preservativo e fazer como tem que ser feito, já que a positividade é um problema por si só. Ao final, todos saem ganhando; de um lado não há o constrangimento do falar – pois sempre é uma surpresa – , e do outro são meses de medo e angústia poupados por ter “se pegado” com um “doente”.

Se e quando chegar a hora de dizer, que seja porque você vai se sentir bem com isso e não porque o preconceito sobre a doença transforma em “pecado” a escolha de guardar isso para si.

Leia a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Você pode falar comigo escrevendo para poz@osentendidos.com.

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