A transfobia mata, a gente enterra

A transfobia mata, a gente enterra

O suicídio e a transfobia estão matando a gente. Essa semana foi especialmente difícil. Tivemos uma travesti suicidada em São Paulo e ontem um homem trans, muito jovem, tentou suicídio no interior da Bahia. O SAMU chegou a tempo e o resgate foi feito. Ele está #transvivo.

Graças a essa coluna e a outros espaços em que me expresso, muitos homens trans me procuram para trocar ideias sobre depressão, alguns a beira de serem suicidados pela transfobia. Já foram muitas mortes nesse pouquinho de 2016, estou emocionalmente desgastado.

foto: Daniel Arroyo

Existe um laço invisível que conecta todos e todas as pessoas trans. Quando a Faculdade Casper Líbero expulsou o Samuel Silva, eles me expulsaram também. Agora o Samuel segue sua vida acadêmica em outra faculdade e expõe feliz suas fotos no Facebook da recepção de calouros. Fiquei feliz.

Lembro da minha primeira reunião do IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidades), em que um cara falou que conseguiu seu primeiro emprego com seu lindo nome social. Comemoramos juntos como em um momento mágico. A verdade é que a marginalidade nos apresenta uma realidade: juntos somos mais fortes. Mesmo nos desentendendo, mesmo não concordando, mesmo com as diferenças, temos muitas vivências em comum. As famílias, as empresas, as escolas, as instituições… Todos nos rejeitam.

Devido a minha pouca renda, de forma cíclica fico completamente sem dinheiro. É nessa hora que uma voz racionalista e fria me sugere o suicídio como solução dos meus problemas. Como forma de tratamento, escrevo. Me exponho sem reservas por acreditar que mesmo essas situações, tão profundas e pessoais, quando compartilhadas se tornam políticas.

Um pouco antes de ter que sair de casa, fiquei dias sem comer na cama. Era só eu e a voz suicida. Sem dinheiro, pouca esperança. Porém, entretanto, contudo, todavia, aprendi que a existência vai muito além dessa racionalidade exagerada e pessimista. Talvez não tenha mesmo lugar pra nós nesse mundo cisgênero. Talvez tenha, mas não consigamos enxergar pela dor da depressão. Mas estamos aqui, #transvivos.

Quando está tudo uma merda, eu olho pra trás. Aí vejo que já estive pior. Relembro em voz alta que tive coragem de mudar meu nome, relembro que tive coragem de dizer que sou homem com a genital que tenho, relembro que João W. Nery já escrevia sobre suas experiências antes do meu nascimento no livro VIAGEM SOLITÁRIA. Luciano Palhano já militava pela dignidade da minha classe quando eu era apenas uma sapatão perdida. Lembro que Buck Angel já foi crackudo e suicida, lembro que outros homens trans existem e resistem em situações mais vulneráveis que a minha, no Brasil e no mundo todo. Lembro que quando estou vivo e escrevo sobre isso outros homens trans se conectam entre si, criando conexões revolucionárias.

foto: Renato Menezes
foto: Renato Menezes

Aprendi a me alegrar com pequenos gestos e dar grande valor ao acolhimento. Quando alguém, de boa vontade, me chama pelo nome social, quando alguém me acolhe em sua casa seja para um jantar ou me oferece hospedagem por algumas semanas depois de uma expulsão inesperada.

Não nego, meu maior medo é morrer como bicha e ser enterrado como mulher pela minha família religiosa. Tenho a impressão que meu corpo trans é lido/violentado de várias formas diferentes, em especial como sapatão, bicha, mulher cis. Um corpo inclassificável pela maioria, uma sobreposição de opressões que, por vezes, não sei como lidar. Para as pessoas me escutarem é preciso um mix de maturidade emocional e política, além de uma paciência sobre-humana. Ainda assim não é garantido. A transfobia está matando nossas perspectivas profissionais, uniformizando nossas referências de beleza, apagando nosso passado e dificultando nosso futuro.

Esse texto é um apelo em direção à vida. Nesse momento difícil precisamos uns dos outros. Temos traumas e medos parecidos. Quando não se sentir forte o suficiente para o amor próprio, convoque ajuda. Existem outras pessoas como você, lembre-se que não estamos sós, estamos nós. Já obtivemos conquistas políticas importantes em vários âmbitos. Entretanto, a maior vitória somos nós: transvivos e unidos. Juntos, com apoio mútuo, podemos celebrar nossos corpos, chorar nossos mortos e seguir em frente, afinal, outros carnavais virão.

Agradeço a todas e todos que me apoiaram até aqui, peço que continuem me apoiando. Em público declaro: quero viver. Se você, agora, não tem mais força pra querer, não se julgue, mas saiba que você não está sozinho no mundo.

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