Folia da bicharada

Folia da bicharada

“Olha o veadinho!”, disse o carnavalesco Milton Cunha com sua voz de ressaca, enquanto a telinha da Globo exibia um carro alegórico repleto de animais, durante o desfile da Unidos da Tijuca. Eu ri, claro. Milton, sacana como ele só, brincava com seu papel de “voz viada” da Marquês de Sapucaí – aliás, segundo ele, esse marquês também era “do babado”. Sem dúvidas, o carnaval carioca é um dos mais fabulosos do mundo…

DandoPintaSloganNos luxuosos camarotes do sambódromo, atores desfilavam suas namoradas falsas antes de unirem suas barbas em beijos nos banheiros, criando pauta para as colunas de fofoca que fazem mistério por responsabilidade jurídica. No entorno, a cena se repetia com anônimos que não precisam temer os holofotes e nem lampadadas, já que os dias de folia tudo permitem.

Nas ruas repletas de sacos de gelo, ventarolas com propagandas de cerveja e latas amassadas sendo recolhidas de poças imundas, mãos bobas ficavam espertas se enchendo em bundas e paus marcados sob sungas minúsculas e bermudões de tactel. Ali perto, no tradicional baile da Gafieira Elite, a pegação descia do salão para ruas, com o sexo acontecendo entre os carros estacionados e os motéis baratos, agora inflacionados pelo reinado de Momo.

Na marginal Zona Portuária – agora revitalizada “para inglês ver” a #CidadeOlímpica – , a V de Viadão jogou purpurina e lantejoulas em sua edição de gala, enquanto uma falange descamisada se esfregava sob os lasers da The Week. No Grindr, no Scruff e no Hornet, perfis anunciavam turistas, visitantes, gringos, foliões… Todos à caça, todos urgentes, todos à procura de gozo, com sede de saliva e de conhecer as maravilhas e os buracos mais apertados e receptivos da turística cidade maravilhosa.

A boemia da Lapa virou gourmet, com fachadas históricas ganhando cores chocantes e interiores modernosos. Chorinho, bolinho de feijoada, caipivodka de lichia… A malandragem maquiada sendo vendida no decolar.com. Os blocos retomaram as ruas do mesmo jeito. Sempre maiores, entre oficiais e clandestinos. No Toco-Xona, o domínio lésbico foi tomado por gays. Nas fantasias, a princesa Elsa, a Inês Brasil e até a Jéssica que já acabou. Ao invés das marchinhas, Cher, Spice Girls, Florence and the Machine e o inevitável tiro certo da Anitta. Gato, você não é pokemon, mas tenho que te pegar. Beijos, amigos, rostos conhecidos dos aplicativos. Aquele crush que nunca tem tempo pra nada, que visualiza as mensagens e não responde, que desmarcou o cinema e esqueceu do seu aniversário está lá, sem camisa e lindo, porque aparentemente os problemas de autoestima eram só com você. Ainda bem que Minha Luz é de LED.

O Sargento Pimenta está grande demais, HELP! I need somebody! Alguém consegue escutar a música com tanta gente no mesmo lugar? No Bunytos de Corpo, purpurina entrando até onde não deve, para nunca mais sair. Que lindo esse carnaval popular, com tanto gay branco cantando alto em inglês! Em todo lugar, drags profissionais disputando espaço com as neo-drags pós-RuPaul. Olha, é a Suzy Brasil de destaque na televisão! Bloco das piranhas, Carmelitas, homens de saia, bigodes de batom, distribuição de camisinhas, de dedadas e de boquetes. Maconha em cigarros e doces. Bloco das quengas, calcinhas de renda, e o Viemos do Egyto enviadando a Cinelândia. Das vielas do Centro aos arbustos do aterro, a pegação. Banheiro químico vira motel. De dia, as areias de Ipanema estão mais animadas que o normal. Na Farme, mais apertos na frente e atrás. A Banda de Ipanema passa, os beijos triplos e a chupação quádrupla ficam. Nessa época a Le Boy renasce das cinzas, até pela promessa de príncipes europeus capazes de transformar amores de dark room em viagens internacionais.

Quarta-feira de cinzas, apuração, festa na quadra da campeã. Quem quer ver a Mangueira entrar?  A diva Bethânia coroada na avenida. Skol Beats para todo mundo! No sábado, o último grito nos mesmos lugares, os últimos matches no Tinder. Vem a segunda que vai começar o ano, os namoros em pausa que serão retomados porque a saudade bateu mais forte. Festas temáticas, grupos de nude no Face e as orgias relegadas novamente às saunas, já que a rua volta a ser cinza.

Os homens descem dos saltos. Amigos e amores de carnaval se transformam em pinturas de memórias alcoolizadas. Nos barracões, o trabalho recomeça. A cidade ainda vai ferver nas olimpíadas, mas ainda faltam 384 para o maior espetáculo da terra tomar conta do espírito carioca novamente. E aí, de novo, olharemos os veadinhos, as bichas, as trans finíssimas, as Barbies, os bofes, os ursos, as quengas… Toda essa fauna de bichos, frutinhas e florzinhas que mascaram nossas fantasias de sexo, sexualidade, identidade e desejos durante quatro dias tão atípicos.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta toda quarta, aqui n’Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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