Dar pinta incomoda muita gente…

Dar pinta incomoda muita gente…

Para muitos, dar pinta é inevitável. Para outros, é uma escolha. É uma maneira de demonstrar orgulho, uma brincadeira entre amigos, a prova da influência do meio ou até da “ditadura gayzista”. Dar pinta nos transforma em alvos, mesmo dentro de um grupo que já está marcado. Por isso mesmo, é político. Por isso, vem sendo valorizado como discurso militante por si só. Por isso, incomoda tanta gente…

DandoPintaSloganNessa semana a coluna completa 3 anos. Apesar do nome, a proposta nunca foi enaltecer o “dar pinta” ou colocar normativos contra pintosas – como já me acusaram – , e sim ter um espaço informal para falar de homossexualidade masculina, de identidade gay e de masculinidade, até com pitadas de humor. Entretanto, as coisas parecem ter um jeito de se encaminhar por vias próprias, e quando essa questão do “dar pinta” e de como gays afeminados sofrem perseguições específicas em nossa comunidade apareceu aqui pela primeira vez, a coluna decolou e encontrou sua voz.

Talvez tenha sido uma questão de timing. Com a popularização do Facebook e dos intermináveis debates na internet, grupos sociais oprimidos puderam se conectar mais rapidamente e partilhar ideias e estratégias para denunciar suas dores e propor mudanças. Há quem diga que “o mundo tá chato”, mas a verdade é que a diversidade de vozes permite que a gente perceba coisas que em outro contexto talvez continuassem invisíveis. Além disso, a problematização sobre o tratamento das “pintosas” e a proposta de valorização desse comportamento – que sempre foram questões políticas do Movimento Gay – ganhou força como memes, páginas e canais de vídeo se popularizaram, ajudando pessoas a sair do armário, divulgando notícias de violência e campanhas, marcando encontros e lacrando lançando bordões.

Nesse tempo, alguns textos viralizaram e foram reproduzidos em outros portais. Como aparentemente fofoca é uma paixão nacional, textos que usavam celebridades para exemplificar situações sempre deram mais o que falar, com gente discutindo sobre as pessoas e as coisas como se fosse essa a questão. Muitos se declararam fãs da coluna e é claro, outros tantos professaram ódio eterno. Analisando a homossexualidade semanalmente, eu fui o mais ajudado por esse espaço e mudei algumas opiniões e principalmente a maneira de articular argumentos sobre o assunto. Vi gente tentando me analisar, adivinhar meus gostos ou inferir sobre minha vida através de textos. Vi gente xingar muito e depois de meses escrever para dizer que mudou de ideia e que agora tinha entendido alguma coisa, e também gente que amava e depois disse que eu “perdi a mão”. Recentemente, durante o início das comemorações do aniversário da coluna e com a republicação dos textos em nossa página do Facebook, o site atravessou seu pior momento. Denúncias orquestradas tiraram a página do ar por dois dias – tempo suficiente para que, no twitter,  voltassem a usar minha coleção de bonecas Barbie para tentar me ridicularizar, como se eu ainda fosse um menininho gay na escola e não tivesse reconhecimento pelo meu trabalho.

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A conclusão é a mais óbvia possível: dar pinta incomoda porque expõe a fragilidade do status quo. Nem aqui e nem em outras páginas do tipo, a proposta de orgulho ou enaltecimento do “dar pinta” significou o fim de normatividades ou masculinismos. Só a masculinidade, tão frágil e apoiada em “não pode isso” e “não pode aquilo”, se sente ameaçada porque alguém é mais ou menos feminino. Questionar a formação de gostos não significa tentar impor que alguém fique com quem não deseja, assim como reconhecer os preconceitos praticados dentro da nossa comunidade, o machismo e a homofobia internalizada não significa colocar subgrupo contra subgrupo. Pensar, problematizar, entender, mudar de ideia, repensar posicionamentos… Tudo é parte daquilo que nos faz humanos.

É claro que nem todo mundo vai concordar. Isso jamais vai acontecer porque cada cultura e cada indivíduo têm suas especificidades, e a luta pelo respeito à diversidade está justamente na esperança de que as diferenças – inclusive de opinião – possam ser ao menos compreendidas. Obviamente que isso não significa admitir discurso de ódio, mas se uma opinião diferente não está prejudicando ninguém, então que seja pelo menos respeitada.

Gay, bicha, viado, boiola… Essas palavras usadas para ofender estão hoje sendo ressignificadas como sinais de orgulho. Claro, isso não é unânime e nem precisa ser, mas vejo com bons olhos que as novas gerações consigam “construir castelos das pedras atiradas”.

Essa coluna de aniversário é especial porque o anúncio bombástico prometido na semana passada é O FIM DA DANDO PINTA! Não que azinimiga já possam celebrar, já que esse fim só virá no próximo aniversário, em fevereiro de 2017, mas tudo tem seu tempo e acho que 4 anos será o limite desse espaço. É lógico que posso mudar de ideia, sabe-se lá o que estarei fazendo em 12 meses, mas a ideia é compilar alguns dos textos da coluna em livro, escrever o romance que tem povoado as minhas ideias e seguir com outras coisas relacionadas ao projeto Os Entendidos, como a nossa festa FABULOSA (que vai voltar em breve), o retorno do canal de vídeos, e também dar atenção à minha vida acadêmica que de vez em quando tropeça nas tretas de internet.

Como sempre digo, apesar de muita gente escrever elogiando os textos e agradecendo pela ajuda prestada por eles, o maior beneficiado por esse espaço fui eu. Talvez a coisa só mude de formato, não sei se seria capaz de deixar de falar sobre assuntos LGBT quando acontecesse alguma coisa especial, enfim. O que quero dizer, apesar de tantas coisas vividas, ainda é o que foi escrito na primeira coluna e virou lema desse espaço: permita-se, seja livre, seja fabuloso. É muito bom. 🙂

Leia a Dando Pinta toda quarta, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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