Pare de passar vergonha, que ninguém está perseguindo “opiniões”!

Pare de passar vergonha, que ninguém está perseguindo “opiniões”!

Ah, a internet! Esse paraíso de nudes, páginas de zoeira, um pouquinho de notícias, filmes pirateados e vídeos de gatinhos! Essa viciante praça de guerra ideológica onde as fotos da Beyoncé convivem com teorias da conspiração sobre o controle do mundo, denúncias de violência e protestos, além das vozes crescentes de grupos sociais que finalmente dispõe de uma via de comunicação… E disputa, é claro! Segura, Berenice. As definições de “close errado” foram atualizadas!

DandoPintaSlogan“Protagonismo”, “apropriação cultural”, “cultura do estupro”, “transfobia”, “blackface” e etc. É gay defendendo Bolsonaro, branco denunciando racismo, homem chorando porque foi perseguido por feministas más e uma verdadeira babel de emojis e frases de efeito disputando o palanque virtual da política de internet. É irritante, muitas vezes é engraçado, mas é necessário. O saldo é positivo.

É verdade que os ânimos estão exaltados, que as posições estão polarizadas, que opiniões medíocres abundam e que muita idiotice é produzida e reproduzida. Não há como fugir. Embora o acesso a internet ainda não seja universal, a cada dia mais e mais pessoas estão conectadas. É um processo sem volta, coerente com o próprio formato da internet, e é por isso que os debates políticos e sociais estão sendo tão profundamente afetados por ele.

Ninguém está perseguindo “homem branco” ou “os heterossexuais”, nem tentando “destruir a família tradicional”, atacando gente rica ou quem está dentro dos padrões de beleza. As dores e as demandas de pessoas que são privilegiadas em alguns aspectos existem e também dizem respeito ao debate social, só que isso é respeitado até mesmo automaticamente, uma vez que a próprias situação de privilégio vai garantir esse respeito. O mundo não “ficou chato”. O problema é que antes muita gente não tinha nem COMO e nem ONDE falar, e agora tem. E isso incomoda.

Os problemas apontados hoje não estão sendo inventados pelos movimentos sociais. Eles estão sendo denunciados porque mais gente vem encontrando canais para expressar suas queixas e demandas. Isso alimenta o debate e faz com que outras pessoas se engajem nessas pautas, gerando conteúdo – tanto na forma de produção acadêmica quanto nos memes da Inês Brasil – e fazendo com que mais pessoas consigam articular e denunciar seus problemas. A coisa se retroalimenta e nessa panela de pressão (e de opressões) temos jovens apaixonados por ideologias, intelectuais pouco acostumados a ouvir um NÃO e muita gente silenciada por não ter educação formal, mas que demonstra maior inteligência emocional ou política do que as palavras são capazes de expressar. Tudo junto e misturado. FAZ PARTE. E mais do que isso, PRECISA FAZER.

É lógico que tem gente que se exalta. Tem gente também que está simplesmente cansada de ser violentada e não quer mais ficar se preocupando se falou feio ou bonito, se fulaninho gostou. Há pessoas dispostas a passar horas debatendo um assunto, esmiuçando conceitos, trolls e gente que acha tudo uma bobagem. Talvez fosse muito legal se todos se entendessem mas isso não é possível. O debate precisa de opiniões contrárias, de momentos de disputa. É assim que conceitos e estratégias são pensados ou derrubados. Que as coisas são reformuladas ou dissecadas em campanhas, políticas públicas ou coreografias de flashmob. É assim que dor ou tesão podem virar engajamento.

Nesse espaço eu falo semanalmente sobre o “ser gay” porque dentro do contexto em que essa coluna se insere, é meu espaço de direito. Isso não impede que eu me interesse por outras pautas, seja em pesquisa ou seja em militância, e nem impede que eu seja solidário e contribua com outras lutas. Antes da sexualidade, considero que “gay” é uma identidade política e que portanto qualquer pessoa gay “levanta a bandeira”, querendo ou não.

Se há gays que “prestam desserviço” atacando outros movimentos, entendo que assim como eu, eles estão em uma jornada particular de posicionamento social nessa “arena”. Num mesmo dia há quem me chame de gênio e quem me chame de babaca, e como até quem é consagrado não é unanimidade – seja Madonna ou Jesus (Cristo, não o Luz) – , a conclusão lógica é de que isso acontece com todos.

Ninguém está perseguindo as coisas estabelecidas como “padrão”, “normais”, “desejáveis” ou “ideais” quando aponta a problemática por trás da eleição dessas preferências. Ninguém está forçando ninguém a pegar quem não quer ou mesmo a mudar de opinião, até porque grande parte de nossos atritos violentos acontece no Facebook, que é a mesma terra do Candy Crush. Nossa vida virtual muitas vezes é tóxica porque embora possamos construir “bolhas” de amigos doidos pelo RuPaul, também somos confrontados com embates diários contra ideias diferentes, pessoas violentas e histórias que não somos capazes sequer de imaginar. Se não concordamos com as colocações de alguém sobre alguma questão, pode ser que estejamos simplesmente errados ou de repente que nossas experiências ainda não permitiram uma identificação com aquele argumento. Até porque, na vida real o buraco é sempre mais embaixo!

Tem coisa que é tabu, tem coisa que é crime, tem coisa que vai contra os direitos humanos. Isso a gente combate, tenta desconstruir, punir, etc. Todo o restante é parte do debate e ajuda a formar discursos mais coerentes e ações mais efetivas, até mesmo quando achamos algo absurdo. Ou vocês acham que algum direito foi conquistado porque alguém gritou e o resto da galera respondeu “sim, claro, pois não”?

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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