Minha primeira cusparada (devolvida)

Minha primeira cusparada (devolvida)

Minha primeira cusparada devolvida aconteceu no já histórico 17 de Abril de 2016. Foi quando o deputado Jean Wyllys – único parlamentar assumidamente gay do congresso – escarrou contra o “mito” de milhões, contra a fantasia insana que representa o ódio de tanta gente. Ali estavam sendo devolvidas, ainda que simbolicamente, as inúmeras cusparadas diárias que eu e qualquer pessoa LGBT recebemos todos os dias. Pela primeira vez, devolvemos.

DandoPintaSloganTenho uma história com cusparadas, apesar de não ter levado nenhuma na cara. Quando tinha uns 10 anos, emprestei uma revistinha a um amigo da rua e depois ele veio dizer que tinha que comprar outra para me devolver, porque os outros meninos tinham tomado a revista das suas mãos, rasgado e cuspido nela em mutirão até encharcar. O motivo? A revista era minha.

O episódio com o Jean fez com que alguns amigos contassem histórias com cusparadas no Facebook. Não sei, de repente deveríamos lançar uma campanha tipo #MinhaPrimeiraCusparada e ver quantos casos apareceriam… Eu tive sorte porque estava protegido em minha casa, então as cusparadas foram contra uma coisa que descobriram que era minha. Mas é claro que fica difícil não pensar no que poderia ter acontecido comigo se a turma de garotos que gastou tempo cuspindo homofobia em uma revista tivesse a chance de fazer isso na minha cara. Entretanto, repito, eu tive sorte.

Li o relato de uma mulher transexual que levou uma cusparada na cara quando entrava em uma estação de metrô, apenas por estar ali. Recebi por e-mail uma história que contava sobre uma cusparada servindo de Grand Finale a uma sessão de espancamento e não faltaram os casos em que os xingamentos e os socos se misturaram ao assédio sexual. Essa é uma das faces mais perversas do tipo de violência que sofrem os LGBT, já que o estigma sobre o sexo e a sexualidade parece atiçar em nossos algozes a ideia de que nossos corpos tudo permitem.

Cuspimos sangue misturado com suor e esperma misturado com lágrimas, enquanto pedimos clemência e tentamos voltar a respirar entre os golpes. Essa é a realidade da tortura física a que inúmeros brasileiros estão expostos agora, não por causa de um regime ditatorial assumido e sim por uma ditadura do desejo que proíbe a expressão de gênero e sexualidade. Mais uma vez eu tenho a sorte de estar dentro da minha casa escrevendo – e você aí, lendo -, enquanto o nosso “estado de exceção” eterno segue firme, já que cidadãos de segunda classe são “os matáveis” em uma sociedade. Hoje eu consegui voltar para casa em segurança. Amanhã, não sei. Nunca sei. Qualquer pessoa nas ruas pode ser um “agente à paisana” pronto para pular sobre mim com uma barra de ferro nas mãos – o que aliás já aconteceu uma vez, no dia em que a adrenalina me apresentou músculos que nunca voltei a ver e corri mais que o vento. Qualquer um que ri, que se sente no direito de sair do próprio espaço para gritar “VIADO” como se alguém tivesse perguntado, pode ser meu assassino. Mas claro, falar nisso é “vitimismo”, é “mimimi”.

Deixando a saliva de lado, todos os dias recebemos cusparadas simbólicas. Qualquer assunto que seja remotamente relacionado aos LGBTs atrai uma horda de cães raivosos prontos a berrar que nada importa, que é tudo VIADAGEM, que buscamos direitos especiais, que estamos tentando OBRIGAR os heterossexuais a nos ACEITAR, como se isso fosse possível! Ora, sem esse modelo “negativo” não há como estabelecer a heterossexualidade como norma. A tolerância é um caminho, mas a aceitação nunca virá. Não importa se “nos damos ao respeito” ou não, se estamos dentro ou fora “do meio”. Fazer o jogo do opressor pode conquistar um verniz de segurança para uma meia dúzia capaz de “segurar a franga” – ou seja, conseguir “convencer” uma heterossexualidade ou cisgeneridade – mas não conquista o respeito, que é um direito universal. Nós estamos aqui, não há como impor condições para o respeito à diversidade.

Como qualquer opressão sistemática, a LGBTfobia consegue a façanha de penetrar em nossas almas e fazer com que nos rejeitemos de dentro para fora. Só assim podemos explicar os inúmeros episódios de exclusão dentro da própria comunidade e também algumas das reações em relação à cusparada de Jean Wyllys contra o canalha que teve a coragem de homenagear um torturador para todo o país ver.

Por causa da "Dando Pinta" tive a honra de conhecer o Jean Wyllys.
Por causa da “Dando Pinta” tive a honra de conhecer o Jean Wyllys.

Assim como Jean, eu também já fui – e sou – chamado de “bicha”, de “boiola”, de “queima-rosca”, já fui ameaçado, já tive meu trabalho desqualificado por causa da minha sexualidade como se fosse ela o motivo de vergonha e não o ódio. É completamente BIZARRO que algum LGBT considere essa cusparada injusta. Assim como Jean e como todos nós, eu já escutei MUITA COISA CALADO ou com medo de “fazerem pior”. Muita mesmo. E se hoje dizemos que esse cuspe também é nosso é porque essa foi a primeira vez em que a cusparada foi devolvida. Que ela seja a gota no oceano de revolta que toda a comunidade LGBT precisa devolver aos seus torturadores.

É pena que o Jean não cospe fogo!

#EsseCuspeÉMeu #AqueleCuspeÉMeuTambém

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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