Espelho, espelho meu, alguém LACRA mais que eu?

Espelho, espelho meu, alguém LACRA mais que eu?

Não tem jeito, “de boas intenções o inferno está cheio” e mesmo as causas mais nobres não estão livres de algum tipo de subversão. Política é uma disputa de espaços e de discursos; e com a internet permitindo que mais e mais pessoas exponham suas ideias, é natural que os movimentos acabem por eleger o que pode ou não pode ser dito, o que é bonito ou feio, pertinente ou irrelevante etc. E há até quem viva disso, confirmando o papel central que a aceitação ou a rejeição de argumentos desempenham na militância. Afinal, quantos likes algumas princesinhas merecem?

DandoPintaSloganÉ interessante que a suspeita de vaidade ou de lucro sejam utilizadas para desqualificar movimentos políticos. Parece que existe um pudor infantil em relação às recompensas, como se alguma coisa só pudesse ser considerada “nobre” se envolver sacrifício e abnegação. Herança da mitologia cristã? Fetiche franciscano?

É, talvez. O que fica parecendo é que se quer que as pessoas trabalhem de graça, ou de repente impedir que elas se orgulhem de suas conquistas ou de seus estudos. De qualquer forma, o que não faz sentido é implicar que isso negue a justiça de uma causa urgente. Classificar as coisas é automático. É parte do nosso processo de entendimento do mundo e de tomada de decisões. É como escolhemos lados. Parte da dificuldade que encontramos quando debatemos questões sociais é que as emoções humanas são complexas, entrecortadas por diversos fatores, o que faz com que esses lados nem sempre estejam bem definidos. Existem coisas – discursos, vestimentas, lugares, movimentos – que podem ser positivas para uma demanda e serem negativas para outra, além de conceitos em constante transformação. É parte do jogo.

Recentemente, vi a “espiral da problematização” chegar à estética do “tombamento”, com suas barbas purpurinadas e tranças multicor, homens de saia e saltão e festas cool para gente “empoderada”. A crítica é de que esses movimentos criariam novos padrões de exclusão, já que essa moda e esses eventos não são acessíveis a todos e mesmo alguns dos debates ficariam restritos aos centros acadêmicos alucicrazy da galerinha jovem que lacra na revolução. Mas e aí, isso é evitável? E se não, por acaso significa algo essencialmente ruim? Não tem meio-termo? Por que o empoderamento é importante, especialmente para quem está à margem. Sentir-se bonito, celebrado, livre de amarras institucionais, é poderoso. É parte da realização do que se prega nos palanques reais e nos virtuais, o que obviamente tem seu valor. Entretanto, todo movimento cultural vai ser marcado por signos próprios que necessariamente vão delimitar novos espaços de pertencimento. Some-se a isso a eterna forme capitalista por novos mercados e esse “pertencer” virá por um preço.

Agora está repercutindo o clipe de “Fiscal”, funk do MC Queer que conta com a participação de um “exército LGBT” – de acordo com alguns sites – composto por Leona Vingativa, Lia Clark, Fefito, Gabe Simas, Nana Rude, MC Linn da Quebrada e afins, para “legitimar o close certo”. E ok, é legal ouvir que “o fervo também é luta” e ver essas pessoas representando a nossa diversidade em um vídeo bem produzido, até para mostrar que protesto não precisa ser triste ou que “produção” não é uma coisa proibida para artistas negros ou trans. Só que esse elenco acaba perdendo o sentido quando a letra – independente de ser um funk – é machista ou infere que homofobia é coisa de “gay enrustido”. Além disso, os dançarinos que sensualizam no vídeo seguem o padrão estético comercial que embora possa facilitar algum diálogo com o mercado está longe de ser o arco-íris de inclusão que parece ser a proposta, ainda mais quando se pensa no termo queer.

Ah, quer dizer que não dá para acertar? Não sei. Provavelmente é impossível criar um produto ideal porque né, o “ideal” pertence ao imaginário de cada um. Mas assumir uma identidade LGBT – ainda mais como proposta discursiva ou nicho de mercado – é uma escolha política, por si só arriscada e valiosa, mas também transpassada pelas múltiplas necessidades desse movimento tão diverso. É óbvio que o fervo também é luta e que quem lacra, dá close ou tomba está clamando seu lugar ao sol e inspirando novas conquistas. É óbvio, também, que o status quo não vai permitir isso de boas, então surge a necessidade de se pensar em estratégias políticas que transformem esses gritos em coisas significativas. E isso só é possível através do debate.

O MC Queer é uma novidade e pode render coisas positivas. Talvez o mais prudente seja aguardar as próximas produções e ver como dialogar com a militância. Da mesma forma, o ideal romântico de nobreza precisa dar espaço para as necessidades atuais das pessoas, inclusive de dinheiro e validação. No fim das contas, a disputa por likes só funciona nas bolhas de nossas vidas virtuais, então as causa que forem realmente as justas – as que valem – precisarão se sustentar no mundo real. Um mundo duro, que por isso mesmo precisa de algumas doses de escapismo e lacração.

Se não, é a gente quem tomba de vez!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça – é lógico, não leu o texto? – de curtir a nossa página.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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