O massacre LGBT não tem hora, dia ou lugar para acontecer. É eterno.

O massacre LGBT não tem hora, dia ou lugar para acontecer. É eterno.

Hoje choramos por Orlando. Em 28 de Junho de 1969, também nos Estados Unidos, o levante de Stonewall serviu como símbolo de um movimento político que estava nascendo. 4 anos depois, em Nova Orleans, 32 pessoas morreram carbonizadas no que até hoje tinha sido o maior massacre LGBTfóbico em terras estadunidenses. Até hoje. Em pleno 2016. Quase 50 anos depois de Stonewall. No “primeiro mundo” do Mickey. Na terra do #LoveWins.

DandoPintaSloganO massacre em Orlando ganha os contornos xenofóbicos que a sociedade americana adora. Um atirador terrorista, supostamente ligado ao Estado Islâmico, ataca o que o grupo enxerga como “os valores corruptos do Ocidente”, dentro do país que é fantasiosamente idolatrado como a “terra da liberdade”. E claro, independente do ataque ter sido em uma boate gay ou do atirador ter escolhido esse lugar por ter ficado “transtornado ao ver dois homens se beijando”, de acordo com o que disse o pai dele, há também a questão política tão urgente naquele país sobre a forma como são tratados os estrangeiros, a diversidade religiosa e o acesso às armas de fogo.

Intolerantes de qualquer tipo existem em qualquer lugar. O que não dá é para qualquer um entrar no mercado e sair com um fuzil.

No que diz respeito à LGBTfobia, a leitura dos infames comentários do G1 mostra que não há nada de surpreendente no ataque. Protegidas pelas telas de seus computadores e de seus celulares, as pessoas dizem que “o que aconteceu foi pouco”, que “a equipe de resgate precisa tomar cuidado ao limpar o sangue dos feridos por causa da AIDS”, que para o pai de um gay “deve ser um alívio” perder um filho dessa forma. Fazem piadas, elogiam o Trump, falam do “amor de Cristo” e de como Deus é capaz de acabar com “essa aberração”, lamentam que no Brasil não seja tão fácil comprar uma arma, batem palmas para o “Bolsomito”, tentam minimizar a questão de ódio no ataque focando nas outras implicações políticas – como se uma coisa excluísse a outra – e é claro, culpam as vítimas e todo o movimento LGBT por “aparecer demais”, por “incomodar”.

Hoje se celebra o dia dos namorados no Brasil. Data comercial sim, mas não há nada de errado em celebrar o amor, em partilhar momentos agradáveis com uma pessoa amada. Infelizmente, para os LGBT isso ainda é negado. Por mais que alguns bairros ou estabelecimentos pareçam seguros, todo casal LGBT sabe que andar nas ruas de mãos dadas ou trocar carícias em público é uma situação de risco. Mesmo em grandes cidades, mesmo no caso de pessoas privilegiadas por sua posição social. Todos os dias somos xingados, todos os dias o nosso amor precisa ser transformado em grito político, todos os dias alguém morre simplesmente por ser LGBT. Simplesmente porque outra pessoa resolveu que aquela vida não merecia ser vivida. Que o mundo seria um lugar melhor sem ela. E o pior, com o mundo concordando.

Voltando aos Estados Unidos, é emblemático que o ataque tenha ocorrido no mês de Junho. Por causa de Stonewall, é o mês do orgulho. O mês que concentra a maioria das paradas LGBT no mundo inteiro. Foi o mês em que o Casamento Igualitário foi liberado no país e também o mês do ataque em Nova Orleans, 43 anos atrás. É impossível não fazer um paralelo entre os dois ataques porque o objetivo dos dois era o mesmo: matar o maior número possível de LGBTs. Ódio e intolerância pura e simples. Com 4 décadas e toda a história de luta, os seriados, filmes e novelas, casamento, leis específicas, crimes emblemáticos e afins. Quase 50 anos de movimento institucionalizado, outros tantos de tentativas anteriores ao “marco inicial”, e ainda um ataque desse tipo. Nesse cenário, dá para acreditar que “o amor venceu”?

Gostam de dizer que a causa LGBT quer privilégios. Que a simples existência de uma “boate gay” ou que a demanda por Casamento Igualitário significa que nos enxergamos como superiores. Qualquer reclamação é “vitimismo” ou “mimimi”. Essa é a lógica da exclusão. A lógica social em que todo um segmento é considerado “inferior” e, portanto, indigno de viver. “Matável”, já que a violência contra os desprezíveis é tolerada e até estimulada. Outra vez, os LGBTfóbicos estão em festa. Outra vez, mesmo sem terem puxado o gatilho, essas pessoas estão por trás de cada bala atirada hoje. Esse é o poder do ódio. O poder de naturalizar a dor, de chamar a violência de “justiça”, dizer que alguma coisa é pecado ou de decretar quem merece viver ou morrer. Hoje o ataque foi em Orlando, mas e amanhã?

Enquanto formos tratados como inimigos, a morte pode estar esperando a cada esquina.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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