O que é “cultura LGBT”?

O que é “cultura LGBT”?

Se Liza está para Judy como Blue Ivy está para Beyoncé, aquilo que se entende como “Cultura LGBT” ainda é uma ideia em disputa, tanto pelas infinitas identidades entendidas como “não-hétero” quanto pelo imaginário social do que é a nossa história. Autores, músicos, estilistas, revoltas, passeatas, crimes chocantes, uma epidemia aterrorizante, festas, boates, saunas, práticas, corpo, suor, gozo, sangue e política. Tudo parte de uma cultura única!

DandoPintaSloganA comunidade LGBT é uma fantasia social transformada em realidade. Somos o que somos porque alguém diz que o nosso desejo ou o nosso amor são os marcos definidores de nossas identidades, que essa ideia de um “ser sexual” é rótulo através do qual seremos inseridos na sociedade – para o bem e para o mal.

Para pensar em Cultura é preciso relembrar a história e procurar os traços distintivos dessa identidade, de uma nação, uma tribo ou um povo. Diferentemente do que aconteceu com os negros escravizados da África e com o povo judeu, não temos uma longa história trágica de guerra, disputa de território ou identidade nacional. Somos membros de uma nação imaginária, de uma “sociedade paralela” que está qualquer agrupamento humano do mundo, bastando que para isso os nossos pensamentos e sentimentos funcionem como “certidão de pertencimento” para dizer que SOMOS essa coisa tantas vezes perseguida e considerada “anormal”, e que é difícil de definir porque parte tanto do olhar estigmatizante do outro quanto de um senso de autoconhecimento.

Se hoje discutimos politicamente os estereótipos que povoam o imaginário social sobre o que é ser LGBT, é porque a própria definição disso vem sendo construída ao longo dos anos. É um debate interessante porque há vários indivíduos que não se identificam com a expectativa de promiscuidade/libertinagem associada a qualquer coisa que seja sexual, embora essas identidades sejam sexualizadas em sua gênese, já que são definidas pela sexualidade. Isso é, no caso de lésbicas, gays, bissexuais, pansexuais, assexuais, demissexuais e afins, já que as identidades transvestigêneres falam da identidade de gênero, tão demonizada e tão fundamental para compreender o corpo político desse movimento e a espinha dorsal dessa Cultura. Afinal, o que incomoda é o que aparece.

O que é um filme ou livro LGBT? Não importando se a história é boa ou não, basta que role um “beijo gay” para que uma obra ganhe status de “LGBT”, como gênero cultural. E isso é interessante porque fala mais sobre o que basta para fazer com que os heterossexuais rejeitem alguma coisa. Pode ser que a história contada não diga nada a uma pessoa gay ou lésbica, pode ser que o personagem X seja meramente decorativo, pode ser que a série ou filme só sejam “gays” porque tem homens ficando com homens e nem por isso se discuta nada de pertinente à essa vivência.

A disputa é natural na arena política e parece que estamos sempre requentando a “briga” entre pintosas e discretos para definir qual seria a melhor estratégia de inserção social ou, pelo menos, maneira de viver (ou deixar viver). Discutimos a formação do desejo, a valorização de corpos, a criação estética,a música, a dança… E é óbvio que tem gente LGBT que não dá pinta, ou que dá pinta mas não curte a Madonna, ou que é mais discreta mas mesmo assim adora a Inês Brasil. O fato é que o que apareceu primeiro – justamente por causa da normatividade de gênero – foi “o diferente”. O homem afeminado, a mulher macho, as pessoas que se travestiam… Foram elas que primeiro enfrentaram olhares, pedradas e forcas para sedimentar um Cultura homossexual.

Da prisão de Oscar Wilde até a criação do jornal O Lampião da Esquina no Brasil, o “ser LGBT” foi sendo moldado em uma identidade reconhecível. Ninguém precisa gostar de Cabaret, Moulin Rouge ou d’O Mágico de OZ, ou mesmo – pasmem – de RuPaul’s Drag Race. Dá para viver sem escutar divas pop. Sem falar em homossexualidade, sem discutir o tempo todo o que é ser gay. Dá para passar a vida sendo absolutamente “discreto e fora do meio” sem que isso necessariamente signifique uma rejeição danosa à própria identidade ou à Cultura do grupo. O que importa, como sempre, é a identidade. É se a pessoa está em paz com sua identidade sexual e social.

Só que o “ser LGBT” tem essa história e sempre vai ter. No futuro é possível – e até desejável – que essas identidades tenham se reformulado, que a sociedade sequer enxergue sexualidade da maneira que faz hoje. Entretanto, a heterossexualidade só consegue se definir pela oposição com a homossexualidade, então os diversos personagens históricos e as produções culturais, os guetos, as transformações políticas, a música e os artistas identificados com esse público ficarão como registro desses séculos em que a sociedade resolveu que gente que faz sexo com gente do mesmo sexo é diferente, precisa de bandeira e de lutar para viver. A Cultura LGBT é viva e inegável, e nisso ela é capaz de nos unir. É um espelho no qual nos reconhecemos ou não, mas que sempre está lá, permitindo essa identificação. É sangue, é cuspe, é gozo, é dançar até cansar, é dublar por nossas vidas.

A Cultura LGBT é multicor, como um arco-íris em plena tempestade.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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