Um menino de vestido incomoda muita gente…

Um menino de vestido incomoda muita gente…

Horror! Descalabro! Pouca vergonha! O resultado da série de liberdades concedidas a um “tipo de gente” que não sabe o seu lugar! É nesses termos – quando não em discursos de ódio ou ameaças de homicídio – que o caso de Talles Faria, que usou um vestido para protestar contra a homofobia em sua formatura no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), vem repercutindo nas redes sociais. Ao que parece, mesmo uma instituição tão forte e que afirma não perseguir ninguém por causa de sexualidade, não consegue resistir ao poder de um salto 15.

DandoPintaSloganTalles não foi o primeiro estudante a fazer isso e nem será o último. É lógico que no caso dele chama a atenção a ligação com as Forças Armadas, pois assim como o mundo do esporte (particularmente o do futebol), esse universo é mais do que simplesmente machista. É “coisa de homem”, e “homem com H”. Entretanto, um formando de vestido e salto sempre levanta o debate sobre a LGBTfobia. Até porque essas “coisas de mulher” são perigosas.

Foi Ian McEwan, em “O Jardim de Cimento”, quem disse (e depois foi citado por Madonna na abertura de “What it feels like for a girl”) que “garotas podem usar jeans e cortar o cabelo curto, usar camisas e botas, porque é OK ser um garoto; Mas para um garoto, parece uma menina é degradante, pois no fundo você acredita que SER uma garota é degradante”. E é essa a questão.

Independente de protocolo, de lacração ou de fobias, inverter os papéis de gênero – mesmo com coisas tão bobas quanto um vestido ou um batom – causa revolta porque ameaça o status quo. Falam em “ideologia de gênero” para tentar demonizar as pessoas que desejam discutir sexualidade e identidade com quem precisa, mas a verdade é que vivemos num mundo com uma ideologia de gênero bastante explícita, que produz uma visão binária e aprisionante do sexo, da sexualidade e das próprias noções de individualidade. Uma “lei” que se baseia em rosa e azul e que estabelece que cabelos compridos, saias, saltos e maquiagem são coisas de mulher, enquanto a força e uma sexualidade predatória seriam as coisas de homem.

A subjetividade é construída por nossas experiências. Sempre que se fala em “construção social” – e, politicamente, em desconstrução de preconceitos – uma galera fica revoltadíssima gritando que nasceu assim ou assado como se alguma coisa pudesse ser considerada NATURAL nesse sentido de “designado por Deus” que geralmente é pensado. Ora, não é porque alguma coisa é construída que ela é falsa. Podemos argumentar que o sistema social “coloca coisas em nossas cabeças”, mas não é como se fôssemos uma folha em branco em que um monstro machista-racista-homolesbobitransfóbico escreve o que quiser. Somos seres sociais em constante processo de formação. Nossa cultura, nosso meio, os discursos a que somos expostos, nossas amizades, a religião, os amores… Toda essa rede de estímulos é absorvida e aceita ou rejeitada, ressignificada e apropriada para formar aquilo que entendemos como NOSSO. Esse conceito de “eu” que é tão caro à nossa sociedade individualista. Assim, entender que somos construídos socialmente não é o problema, pois isso sim que é natural. O problema é tratar essa subjetividade formada a todo tempo como algo fechado e sagrado, e que está sob ataque de tudo  que é diferente de nós.

A masculinidade é construída em suas interdições. Naquilo que um homem NÃO PODE fazer para que consiga usufruir do status de macho em uma sociedade machista. Não pode chorar, não pode demonstrar afetividade, não pode se negar a fazer sexo com uma mulher que demonstra desejo, não pode ter desejos ou práticas homossexuais. A homossexualidade é o “perigo maior” porque é entendida como essa “outra espécie” da qual não existe escapatória e em cuja classificação é possível cair com qualquer “deslize”. E isso é triste. É triste porque é exatamente o que produz a homofobia que destrói famílias e que custa tantas vidas, gerando tanta violência. É triste porque reforça essa relação de poder que coloca um comportamento como “normal” e outro como “desviante”. É triste porque faz tanta gente ficar doida só porque sentiu tesão num amigo e por isso acha que precisa ser classificada como outra categoria de pessoa.

Um menino de vestido incomoda tanta gente porque de uma tacada só, fala de tudo isso. O poder político da transgressão é diretamente ligado ao poder coercitivo da regra quebrada, e é por isso que uma coisa tão boba quanto um vestido ganha esse tamanho todo. Ela denuncia a fragilidade das correntes que nos aprisionam. Aquelas que se imaginam tão fortes. Nesse contexto, um menino de vestido é capaz de sambar na cara das Forças Armadas.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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