Sexualidade precisa ser ASSUMIDA?

Sexualidade precisa ser ASSUMIDA?

Ator é fotografado aos beijos com outro homem em uma festa e a fofoca vira manchete. Por causa da exposição, ele agora é vítima de ataques homofóbicos em suas redes sociais. Por causa do aparente espanto das pessoas com um simples beijo, ele sente a necessidade de “assumir” – ainda que não estivesse escondendo nada – a sua sexualidade publicamente, levantando uma bandeira política sem querer, mas com inevitável razão. Tudo porque lhe cobraram uma “verdade” que só pertence a ele. Tudo porque os gays PRECISAM assumir.

DandoPintaSloganO “armário” é uma das experiências fundamentais do “ser gay”. Mesmo quando nem sabemos o que é isso ou quando não pensamos estar escondendo nada, quando sequer conseguiríamos esconder seja lá o que possa ser considerado “suspeito”, ele está lá: esse espaço-vivência-temporal em que “somos mas não somos” porque para ser é preciso admitir.

Essa é uma experiência tão fundamental porque é cruel. Ainda que em várias famílias a homossexualidade de um filho possa ser bem recebida, o simples fato de existir uma cobrança social para que essa pessoa exponha algo sobre sua intimidade já é problemático. Sádico, na verdade, pois temos o exercício de poder despudorado daqueles que dão as cartas por estar certos. São piadas, agressões, perguntas inconvenientes… Tudo para fazer saber que eles SABEM. Para produzir dentro do indivíduo a certeza de que ELE É e que, portanto, precisa ADMITIR. Não é bizarro que homossexuais sejam cobrados a dizer EU SOU justamente para quem lhes diz VOCÊ É a vida inteira?

Em sua carta, Leonardo Vieira diz que não escolheu ser gay e que “se pudesse escolher, escolheria ser heterossexual com certeza”. Isso é triste, mas provavelmente é algo que já passou pela mente até mesmo do mais orgulhoso ativista LGBT. Afinal, quem escolheria ser alvo de preconceito? Ter seus desejos policiados, suas relações ameaçadas, seus direitos negados, sua segurança em risco, sofrer perseguições no trabalho, etc? Seria melhor mesmo ser heterossexual e viver em paz, ainda que isso pudesse significar uma perda considerável em estilo e um vício em camisas pólo topzera. Entretanto, a coisa não é tão fácil.

Uma identidade sexual – mesmo a hétero, olha só! – é construída.

Infelizmente, falar em construção e desconstrução social já virou problema em nossa era de discussões virtuais. Aparentemente, as pessoas entendem que uma reflexão sobre o processo de construção de alguma coisa implica em dizer que ela seja falsa, quando na verdade significa apenas reconhecer a complexidade na formação daquilo que é tão enraizado em nós que entendemos como “natural”. É um pensamento angustiante porque somos treinados para classificar as coisas sempre da maneira mais absoluta possível, o que não se aplica a algo tão variável quanto o comportamento humano. E por isso mesmo, não faz sentido falar em “gay” e “hétero” como categorias essenciais. O buraco é mais embaixo.

Não podemos escolher nossos desejos, mas podemos escolher como chamá-los ou tentar redirecioná-los. Existe hétero que tem experiências homossexuais e não se classifica como bissexual, assim como existem gays que tem experiências heterossexuais e bissexuais que por acaso só se relacionaram com pessoas de um gênero durante toda a vida, e que mesmo assim se reconhecem como bissexuais. Essas são identidades, e ainda que sejam “identidades sexuais”, dizem respeito a como essas pessoas se relacionam socialmente e como entendem seu papel no mundo. A grande questão está sempre no preconceito. É nessa relação violenta com o estigma que aprendemos o que é permitido e enaltecido e o que execrado, o que logicamente altera a nossa forma de lidar com o que somos.

Tem gente que é enrustida e que passa a vida tentando reprimir seus desejos. Tem gente que se diz “ex-gay” porque procura redirecionar suas práticas (e eventualmente, suas vontades) para atender à expectativa social que coloca a heterossexualidade como modelo ideal. Essas pessoas costumam ser ridicularizadas porque “não existe ex-viado”, já que a relação de inferioridade da categoria “desviante” implica que alguma “derrapada” para ela necessariamente CONFIRMA o pertencimento do indivíduo nessa caixa específica. Entretanto, o mundo é muito vasto. Para além da política, da academia, do preconceito ou da militância, pessoas estão vivendo e fazendo qualquer coisa muito mais rápido do que se pode categorizar.

O próprio Leonardo já foi “flagrado” aos beijos com mulheres sem que isso tenha sido suficiente para que ele fosse acusado de ser hétero ou bissexual. Hoje, ele viu-se forçado a ASSUMIR o que não escondia e a fazer desse gesto um ato político. É o paradoxo de subversão do estigma, pois ao mesmo tempo em que a exclusão PRODUZ as identidades sexuais que persegue, também faz com que a existência delas como possíveis – e até como motivo de ORGULHO – sirva para a luta por igualdade. É assim que somos todos políticos e que estamos sempre “levantando bandeiras”, pois isso independe de nossa vontade ou engajamento. Existimos resistindo. Somos políticos indo à padaria ou beijando alguém numa festa.

Ninguém deve ser forçado a assumir nada. Mas enquanto formos forçados a nos esconder, dizer EU SOU é tomar parte na luta!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

Avatar
Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

Ver todos os posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *