Como “ser homossexual” sem o sexo?

Como “ser homossexual” sem o sexo?

Quarentena. Isolamento social, esse presidente inacreditável, medo. Correntes do WhatsApp e brincadeirinhas no Facebook. Dublagens no TikTok, o torrent do RuPaul baixando e stream na Dua Lipa. Tédio, tesão, Amor de Que. O barulho do Grindr. É que tem tanto homem bonito na cidade… Vontade de sair, de dar. E não dá!

É possível ser “homossexual” quando não é possível ser “sexual”? Sim. Primeiro que dá para fazer sexo de muitas maneiras, inclusive sem contato com outras pessoas. Além da masturbação, atualmente os smartphones esticam o nosso self para um mundo virtual cada vez mais presente, onde trocar nudes num aplicativo ou biscoitar no Twitter muitas vezes dão conta de satisfazer qualquer impulso erótico. E isso até quando a ideia era só esquentar antes da “real”, quem nunca pensou que o crush estava melhor na foto que atire a primeira pedra! E é claro, temos as pessoas assexuais com identidade e/ou orientação homo também.

Contudo, a abstinência forçada pelo isolamento social ante a pandemia do Covid-19 faz pensar sobre a particularidade de uma identidade – ou seja, de um “jeito de ser” – baseado na orientação afetivo-sexual. Afinal, ser LGBTI é carregar o desejo como rótulo, como um nicho de classificação, como se a sexualidade fosse não só aquilo que define uma pessoa, mas também como se o que se faz – ou se deseja fazer – na cama importasse para todas as atividades e relações da vida.

Seres humanos tendem a tomar sua realidade como uma coisa dada, natural e, sob muitos aspectos, imutável. É por isso que a sexualidade, enquanto coisa íntima, é entendida de forma semelhante à “alma”: uma coisa imaterial e inescapável que habita nosso corpo e constitui o nosso ser. Entretanto, apesar de desejos e práticas sexuais os mais variados serem amplamente documentados na história da humanidade, o conceito de “sexualidade” enquanto força definidora daquilo que SOMOS é uma criação recente da “ciência sexual” ocidental. E isso não significa dizer que ela é alguma fantasia e sim que, a partir de determinado momento histórico, uma maneira específica de pensar o sexo foi aceita como norma.

Nos anos 1980, logo depois da agitação do final dos anos 1960 e da libertação que ela trouxe à década seguinte, o mundo viu o início de uma outra pandemia. A princípio, foi fácil ignorar uma peste que parecia atacar preferencialmente aos homens gays. Era “castigo de Deus” contra os desviados e, para uma sociedade que tem a família heterossexual e o casamento monogâmico como pedra fundamental, provavelmente uma dádiva. Mas não demorou para que o HIV lembrasse que os vírus não estão preocupados com cor, gênero, sexualidade ou orientação política e religiosa de suas vítimas. O vírus não discrimina. Na verdade, revela.

O HIV/Aids tirou muita gente do armário e mudou o entendimento sobre práticas sexuais, educação sexual e prevenção. Ainda existe muito estigma e muita gente que considera “coisa de viado” ou acha merecido que algum libertino seja infectado por uma IST, mas a doença ajudou a mobilizar a comunidade LGBTI em torno de uma causa. Em grande parte, ela é a causa de muitas das conquistas políticas desse segmento, por ter dado visibilidade aos grupos civis homossexuais que ao fim do momento mais crítico da pandemia chegaram a uma realidade transformada. O sexo estava em discussão, mas também o que é essa identidade. O que faz com que alguém sinta que pertence a esse grupo por partilhar seus valores, sua cultura, suas fragilidades e suas lutas. É essa aglutinação de valores que criou um nicho de consumo, um segmento político, uma bandeira – ou várias – e a subjetivação de uma identidade.

Pensar sobre seus desejos, ter medo de nomeá-los e eventualmente sentir-se obrigado a assumi-los enquanto “identidade” é uma prerrogativa dos desviantes. Quem está dentro da norma, quem é a própria régua através da qual a realidade é medida, não passa por isso. E é esse o grande processo unificador das identidades sexuais. Tem gente que não se aceita, tem gente que se aceita e não assume, tem gente que sabe que é mas que não pratica, tem gente que pratica sem considerar que é. Tem a violência, a discriminação e também as alegrias.

Mandar nude no Grindr e aplaudir a Britney marxista são coisas mais importantes para a nossa sensação de pertencimento ao rótulo “gay” do que o sexo. E antes que venha o “Ah, mas eu sou gay de direita e não gosto de diva pop e promiscuidade”, o que quero dizer é que são os elementos constitutivos da nossa “cultura LGBTI” que vão nos unir sob esses rótulos, mesmo no caso dos indivíduos que rejeitam parcial ou totalmente esses signos. A não-identificação é também uma forma de reconhecimento da concretude de alguma coisa, mesmo quando se trata de uma construção social como a da identidade sexual. E é esse processo de identificação, com todos os seus lados positivos e negativos, que constitui o “ser homossexual”.

Após o pico de contágio e o enterro dos mortos, teremos um mundo profundamente transformado em termos econômicos e sociais, com nossa relação com a tecnologia e com os contatos pessoais profundamente afetada por essa crise apocalíptica. A pandemia e a abstinência sexual forçada talvez sirvam para acelerar o processo de reflexão sobre a sexualidade e movimento identitário, ajudando a deslocar esse olhar sobre o sexo que é usado para estigmatizar qualquer desejo ou prática que considerados “indesejáveis”. Há coisas mais importantes.

Como “ser homossexual” sem o sexo? Existindo. Resistindo. Sobrevivendo. Sendo.

* Você pode ler outros textos meus sobre identidade na coluna Dando Pinta.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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