PPP: Panelaço, Paredão e Pandemia

PPP: Panelaço, Paredão e Pandemia

Às 20:30 o presidente gastou oito minutos para falar à nação, ao som de gritos e de panelas batendo em todos os cantos do Brasil. Horas depois, gritos que pareciam os de uma “final de Copa do Mundo” voltaram a ecoar pelas cidades, quando “el mago” Felipe Prior foi eliminado do Big Brother Brasil em um paredão histórico, com mais de um bilhão de votos.

O engajamento com esse paredão foi impressionante. Se de um lado tínhamos o Mídia Ninja e a Bruna Marquezine puxando o #ForaPrior, do outro tínhamos o MBL e o deputado Eduardo Bolsonaro torcendo pelo rapaz. O deputado chegou a chamar de “militante de esquerda” – insira aqui o Guevara chorando – a atriz e cantora Manu Gavassi, grande adversária de Prior na disputa onde Mari Gonzalez estava de figurante. E foi assim, com jogadores de futebol prometendo camisas autografadas em defesa de Felipe e muita discussão sobre feminismo, racismo e “mimimi politicamente correto” que esse paredão virou termômetro de um Brasil febril.

Agora, os confinados somos nós. Dentro da “casa mais vigiada do Brasil” a pandemia do coronavírus chegou como notícia e, exceto por um maior cuidado com a higiene, os participantes ainda não tem noção de como estão as coisas aqui dentro fora. Abraços e beijos seguem liberados. E enquanto as novelas tiveram suas gravações suspensas e foram substituídas por reprises, o programa acabou sobrando como última opção de entretenimento em aberto, com muita coisa ainda por se definir. E nesse contexto, a vocação do reality para experimento social foi maximizada, escancarando o pensamento brasileiro na votação para eliminar os participantes.

No ano passado, pouquíssimo tempo depois das eleições de 2018 e do início do mandato de Jair Bolsonaro, a moça que proferia absurdos racistas “sem saber” saiu campeã porque uma horda de pessoas a elegeu como resposta ao que chamava de “mimimi militante”. Se as denúncias vinham dos participantes pretos dentro da casa, eram potencializadas nas redes sociais e ganhavam os signos da eleição recente. Dar o prêmio para Paulinha foi a forma de sacramentar que o Brasil estava em uma nova onda de barbárie, contra tudo que é politicamente correto. Se a vitória da acriana Gleici Damasceno em 2018 parecia ilustrar que o debate acerca de questões como o feminismo, o racismo e as políticas sociais de combate à pobreza tinham progredido, a decisão em 2019 veio provar que os opressores estavam apenas adormecidos.

Em 2020, o jogo foi marcado pela formação de um grupo de homens que foi extremamente machista na criação de uma estratégia para atacar e desestabilizar as participantes femininas da casa. E enquanto a eliminação desses homens ainda surpreendia os jogadores, a entrada de dois participantes previamente confinados em uma casa de vidro num shopping carioca levou a informação externa sobre o complô, unindo a maior parte das mulheres em um grupo alinhado sob a bandeira do feminismo branco.

E assim, os homens da casa foram sendo eliminados até que restasse apenas o ator Babu Santana. Preto e vindo da favela do Vidigal, Babu se destacou também pela maturidade – é o participante mais velho da edição – ao se posicionar contra o complô masculino, sem com isso tentar surfar na vilanização dos rapazes. Consciente, brigou com o amigo Prior por não aceitar votar em Thelma, também preta, porque “é uma coisa maior que o jogo”. Ele expõe o racismo do grupo feminino quando é apontado como um “monstro” e votado “por questão de convivência” simplesmente por brigar para que as pessoas lavem a louça ou mantenham a cozinha limpa, e agora desponta como um dos favoritos ao prêmio.

Babu foi uma peça importante na trajetória de Prior porque a amizade dos dois serviu para mostrar que o “vilão de Malhação” não era tão mau assim. A torcida de Babu, alinhada com o debate racial, demonstrou preocupação com o estado mental do ator após a eliminação do amigo e com a possibilidade de ele ficar isolado entre as mulheres, mas é importante destacar o uso desse argumento pela torcida de Prior também. O racismo das participantes foi apontado como o motivo para salvar o machista nesse momento, uma vez que ele seria o grande apoio de Babu. Contudo, é difícil acreditar que toda essa torcida estivesse sinceramente preocupada com a questão racial quando a figura de Prior foi politizada como a resposta possível contra o “mimimi da Esquerda”.

O pronunciamento do presidente horas antes da eliminação do BBB teve um tom mais brando do que o anterior, quando ele pediu que o povo voltasse às ruas porque a “gripezinha” só vai matar alguns idosos. Mas se em 2019, com Bolsonaro recém-eleito e surfando na onda de ódio que o popularizou, o Big Brother coroou uma racista, agora o cenário é outro. A incompetência do presidente até para ouvir conselhos técnicos está acabando com sua imagem entre os apoiadores, e ele que sempre foi uma figura tragicômica da nossa política é agora motivo de chacota – e de preocupação – mundial.

Ainda é possível que uma racista ganhe o BBB esse ano. O jogo muda a cada semana e alguém pode voltar a centralizar os votos dos conservadores contra o politicamente correto. Contudo, hoje, parece que a narrativa em construção vai conduzir Babu à vitória, tanto pela rejeição ao feminismo liberal das mulheres da casa quanto pela percepção de que ele, em sua integridade, é merecedor do prêmio. E ainda por cima, é um homem preto. E assim, embora ainda restem alguns dias para o fim do programa, o paredão de ontem ganhou contornos de final. O paredão, também, fez ecoar o panelaço. Com todo mundo em casa e um programa popular que utiliza votação online, o que vemos a cada resultado é uma pesquisa de opinião. E quanto mais o presidente mostra sua burrice, chegando ao ponto de arriscar vidas, mais difícil fica defendê-lo até mesmo entre seus apoiadores. E maximizado por um pandemia que obriga todo mundo a ficar em casa, o paredão do BBB virou um grande panelaço.

Prior foi eliminado com apenas 56% dos votos, mas eles foram mais de um bilhão e meio. Não foi só sobre ele ou Manu, foi o eco do panelaço que, pouco antes, gritava que o coronavírus pode derrubar Bolsonaro. E o barulho foi grande.

Avatar
Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

Ver todos os posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *