“Não sou esse tipo de gay”: Como os hétero conseguiram fazer de VOCÊ seu pior inimigo!

“Não sou esse tipo de gay”: Como os hétero conseguiram fazer de VOCÊ seu pior inimigo!

A notícia é de que um jovem gay sofreu agressão homofóbica em um táxi. A seguir, veio a público que essa agressão teria sido motivada pelo suposto assédio da vítima em relação ao motorista, o que por enquanto são apenas alegações. O resultado: o viadeiro no Twitter aproveitando a deixa pra dizer que não é “esse tipo de gay”

Em primeiro lugar, é óbvio que assédio sexual não é justificável em nenhuma circunstância. Por enquanto não é possível afirmar que tal coisa ocorreu, mas se foi o caso, é crime e o motorista estaria em seu direito de denunciar. DENUNCIAR. Responder ao assédio com violência física também não é justificável, e evidentemente existe a questão homofóbica no caso.

“Pânico gay” é um dos argumentos mais utilizados para justificar crimes LGBTfóbicos no mundo, há muitos anos. A ideia de que uma pessoa cisheterossexual – em geral, um homem – “perdeu o controle” ao ter sua honra atacada por uma pessoa LGBTI e por isso respondeu com violência, às vezes chegando ao homicídio. São muitas histórias do tipo, desde “o homem que foi sair com uma mulher e se sentiu enganado ao descobrir que ela era trans” e as mais parecidas com a desse episódio do táxi, quando um homem gay supostamente OUSA demonstrar interesse por um heterossexual.

Existe uma dessas frases feitas que circulam pela rede que diz que “homofobia é o medo que homens heterossexuais sentem de serem tratados da forma que tratam as mulheres” ou coisa assim. É inegável que há muito o que pensar e discutir sobre a socialização masculina e como é construída a relação dos homens – inclusive os gays – com o sexo. Afinal, o machismo é estrutural e vai afetar a vida de todo mundo em diferentes níveis. Outra questão, que é mais específica, é de como a “identidade gay” é uma identidade sexual e, portanto, é uma forma de compreensão de si que parte do desejo. O nosso “personagem social”, ou seja, a maneira como somos lidos em sociedade e através da qual aprendemos como nos comportar e quais são nossas possibilidades de ação, desejos e afetos, parte de uma categorização ligada ao sexo. E isso faz com que sejamos percebidos como sempre disponíveis para sexo, e portanto um alvo constante de assédio, mas também que internalizemos essa ideia, sentindo que só podemos realmente existir em conformidade com nossa identidade sendo extremamente transantes.

Não vou entrar na discussão sobre a pornografia e como certas fantasias, tipo essa de “chamei o Uber e paguei com a boca”, são parte do problema. Para quem gosta de sexo, é sempre válido explorar caminhos excitantes de praticar, o limite é sempre a vontade do outro e o respeito à lei. O que me chamou a atenção nesse caso foi a reação de uma grande parcela da comunidade gay, que para além do debate sobre o assédio aproveitou a oportunidade para destilar ódio mesmo. Auto-ódio, expresso através de memes tipo “vou dar um tiro nas gay” e comentários APLAUDINDO a agressão homofóbica e dizendo que “gay assim” ou “essa gay” dão motivo, que “é por isso que não somos respeitados” e coisas do tipo.

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Mendigar aceitação é lamentável. Fazer isso através de um postura servil, como se fosse preciso o tempo todo pedir desculpas pela homossexualidade, é triste. E principalmente, é a vitória do mecanismo de classificação responsável pela própria ideia de sexualidade. Enquanto existir a ideia de que uma coisa é “normal” e outra é “desviante”, estaremos à margem. Pode ser rico, branco, estudado, bonito, culto, inteligente e o caramba, ser homossexual é ser marginal. Sim, é evidente que questões sociais, raciais e de classe vão afetar nossos caminhos, percepções e possibilidades, mas é preciso entender – e combater – a noção estrutural de sexualidade que basicamente divide as coisas em “hétero e todo o resto”. Esse resto é qualquer possibilidade de vivência não-hétero. É o “outro” que vira referência para que uma pessoa heterossexual possa dizer “eu não sou isso”.

Héteros dizem “eu não sou isso” o tempo todo. Quando a transfobia vira piada numa live de música, quando o personagem gay super estereotipado da novela ganha filme de comédia e é reprisado anos depois, quando um presidente é eleito tendo a LGBTfobia como plataforma. O “pânico gay” é outro desses mecanismos, pois não basta resistir a um possível assédio, é preciso responder violentamente a ele para deixar claro que ISSO NÃO. É poder, e ninguém vai abrir mão de poder facilmente.

O bizarro é como esse pânico moral conseguiu fazer dos próprios homossexuais agentes de sua exclusão. Como parece mais fácil dizer “não sou assim” do que entender que para eles sempre seremos “o outro”.

Você pode não ser “esse tipo de gay”, mas nenhum verniz de respeitabilidade vai trazer a tão sonhada igualdade.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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