A falta de “autonomia” das candidaturas LGBTI no Brasil

A falta de “autonomia” das candidaturas LGBTI no Brasil

Na medida que cresce na sociedade brasileira a vontade de acabar com as discriminações contra pessoas LGBTI, também os partidos políticos buscam se adaptar para representar esse desejo do eleitorado. Eles lançam, então, candidaturas LGBTI. Mas não sem manobras que buscam preservar pelo menos boa parte do poder dos grupos que parasitam em suas burocracias.

Dos artifícios utilizados para este propósito o mais importante é a subordinação dos candidatos. O que resulta na falta de autonomia das candidaturas LGBTI.

O\A candidato(a) só se torna viável se tiver um “padrinho” dentro de sua estrutura. Só é aceito se sua agenda for a do grupo que o apoia nos bastidores. Só recebe recursos, quando muito, se grupos externos à comunidade organizada decidem que ele(a) merece. E para merecer é preciso não só ter um comportamento dócil como dar prova dele. Uma exigência que particularmente estimula a disputa de LGBTI uns contra os outros para ratificar sua fidelidade ao grupo hegemônico.

Esse padrão, que se repete nos diferentes espectros ideológicos, bloqueia por exemplo que o movimento LGBTI estabeleça suas próprias prioridades ou que ele tenha acesso aos mesmos recursos que outros competidores na mesma chapa. E, por outro lado, permite que sejam indicadas como lideranças comunitárias funcionários de gabinetes, secretários de pessoas poderosas, e até amigos, maquiadores, cabeleireires, figurinistas et cataverna de caciques e suas esposas.

Há casos também em que pessoas são indicadas como representantes LGBTI com a condição de oferecerem, em troca, os cargos em sua futura equipe para um grupo que nem sequer mantém contato com a comunidade LGBTI.

Tamanha falta de autonomia, é evidente, é expressão da LGBTIfobia institucional e um mecanismo de dominação. Mas também é verdade que existe dentro de um contexto vulgarmente conhecido como “pegar ou largar”. Do tipo, ou é desta forma, ou não tem apoio nenhum, candidatura nenhuma.

O reequilíbrio dessa relação de negociação com poderes estabelecidos, que são muito bem organizados, depende que LGBTI, por sua vez, também se organizem mais, e assim possam ao menos negociar em termos melhores. A fragmentação excessiva, as disputas internas sectárias, estimuladas inclusive pelos poderes hegemônicos, dificulta esse processo e pavimenta o caminho para derrota interna nas organizações partidárias.

Rodrigo Luis Veloso é mestrando em sociologia e pesquisador na Universidade Federal Fluminense e do Movimento Unificado pela Diversidade (MUDi)

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