TODOS LGBT NO RIO TÊM MÃE: INDIANARA SIQUEIRA

TODOS LGBT NO RIO TÊM MÃE: INDIANARA SIQUEIRA

“Sou um tanque de guerra\ pintado de rosa-choque\ se você não quiser me ver através da sua íris\ feche os seus olhos ao me ver passar\ porque o meu estandarte tem as cores do arco-íris”

A música acima foi composta pela mente brilhante de um ícone do movimento de travestis e transsexuais na América Latina, Indianara Siquera.

Sua biografia é digna de um roteiro de filme de Hollywood. Nascida no interior do Paraná, um dos locais mais conservadores do país, e expulsa de casa bastante antes de completar a maioridade, Indianara forjou-se nas ruas, emergiu como um espectro dos becos e puteiros que protege as criaturas da noite.

Como definiu Bianca Fernandes: Indianara é um “laroiê a Exu”.

Sua trajetória remete aos primeiros movimentos brasileiros na luta contra epidemia de AIDS. Na década de 1990, sua participação foi central para derrubada de uma portaria do Ministério da Saúde que classificava a homossexualidade como doença. Nos anos 2000, ajudou a fortalecer organizações trans que contestavam a hegemonia de homens gueis a frente das principais instituições LGBT. Nos anos seguintes, rompeu com outras trans em solidariedade às travestis e transsexuais com “menor grau de passabilidade” (geralmente pobres) que não eram aceitas no movimento por não serem consideradas femininas o suficiente.

Em 2020, em plena pandemia de coronavírus, Indianara pessoalmente distribuiu com uma kombi mais de 3 mil cestas básicas. E se contaminou pelo vírus no exercício dessa atividade.

De coração enorme, ainda decidiu abraçar a causa animal. Tornou-se vagana.

E mais recentemente declarou pelas redes sociais, ostentando uma fina barba diante da câmera, que agora não se reivindicaria mais trans, e sim Agênero, um corpo sem uma classificação fixa de gênero, contrário a todas as padronizações. Uma interpretação anarquista contra as obrigações de comportamento.

Por onde ela passa, há gente que lhe diz algo. Um corpo estranho. Uma louca. Uma radical. Um tanque de guerra. MÃE. No processo de solidarizar com tantas pessoas Indianara cumpriu um vazio aberto no coração de LGBTs de toda cidade.

Deixou de ser só a lenda que virou filme premiado no festival de Cannes para se tornar a verdadeira família de dezenas de pessoas. Mãe, madrinha, Indianara Siqueira.

Rodrigo Veloso
Escrito por:

Rodrigo Veloso

Rodrigo Luis Veloso é mestrando em sociologia e pesquisador na Universidade Federal Fluminense e do Movimento Unificado pela Diversidade (MUDi)

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