Entenda porque a comunidade LGBTIA+ deve seu voto a Indianarae Siqueira, da Casa Nem

Entenda porque a comunidade LGBTIA+ deve seu voto a Indianarae Siqueira, da Casa Nem

A história militante de Indianarae remonta aos anos 80, em plena epidemia de AIDS, quando muitos formuladores notáveis dos movimentos sociais LGBTIA+ que sugiram no Brasil nos anos 1970 morreram em decorrência da doença. E se cruza, como era comum entre as travestis na época, com uma atitude de enfrentamento às redes de exploração sexual de cafetões e policiais que cometiam as mais bárbaras violências contra prostitutas.

Indianarae foi assim adquirindo inicialmente sua fama, e com sua capacidade de mobilização entre as pessoas trans, foi atraindo também o interesse de órgãos de saúde, preocupados em conter a disseminação da AIDS, além do interesse de outras prostitutas, travestis e frequentadores dos seus territórios nas cidades com relação às violências que sofriam.

Ícone da beleza e da sensualidade trans, foi capa de revista, fez programa com notáveis nomes da política e da economia, mas foi tomada mesmo por uma atitude de solidariedade com relação à comunidade da qual fazia parte.

Denunciou a cafetinagem mais violenta, ajudou a introduzir no Brasil o conceito de “cafetinas do bem”, que garantiam segurança para prostitutas em áreas da sua influência, sem uso de violência para cobrança de dívidas ou abuso trabalhista. Essa revolução dentro da cafetinagem acabaria se tornando o embrião do movimento nacional de pessoas travestis e transsexuais, uma cisão fundamental com as tradicionais organizações LGBTIA+ capitaneadas por homens gueis.

Acabou presa na França, onde um governo de direita em Paris tentava acabar com a prostituição, e forjou-se dentro do sistema penitenciário anarquista, aprendendo táticas de autogestão entre os outros presos, com os quais manteve geralmente ótimas relações.

De volta ao Brasil, continuou emprestando sua fama dentro da comunidade LGBTIA+ para campanhas de saúde, pela despatologização das identidades, em defesa do fortalecimento do SUS, e também para partidos de esquerda, além de movimentos anárquicos. Por sua atuação, foi agredida, perseguida, e até jogada de um ônibus em movimento pela milícia na zona oeste, onde mora.

Sua resposta, já na fase mais amadurecida do seu ativismo, foi o curso “Prepara Nem”, um projeto de educação pré-vestibular voltado para pessoas trans, e que garantiu o ingresso de várias em instituições de ensino superior, e que, para além deste seu objetivo principal, acabou se tornando um pólo de referência para luta contra transfobia.

O curso se tornou ‘Casa’ quando a convivência com outros frequentadores cisgêneros e transfóbicos se tornou inviável. E então Indianarae passou a coordenar a “Casa Nem”, o primeiro projeto de abrigo para pessoas LGBTIA+ expulsas de casa ou vítimas de violência no Rio de Janeiro.

Condenada ao fracasso pelos críticos, que acusavam Indianarae de romper demasiadamente relações com pessoas cisgêneras, a Casa recebeu mais pessoas. Travestis vindas de Argentina, Bolívia, Colômbia e Venezuela se juntaram às que já moravam na Casa, e coletivos LGBTIA menores e recém formados se interessaram em manter o projeto de pé.

Em um dos episódios mais emblemáticos, a Casa, cheia de dívidas, recebeu a doação de obras da mostra “Queermuseu” de artistas que concordaram com a realização de um leilão para angariar fundos e mantê-la viva. O slogan de Casa Nem passaria a ser ‘Casa Nem, Casa Viva’.

A sua desocupação aconteceu porque os altos aluguéis e os custos de alimentação de um número grande de pessoas exigiam um esforço maior do que a comunidade foi capaz de fazer em suporte. Indianarae não esmoreceu, como tantos apostaram. Levou boa parte daquelxs que vivam na Nem para ocupar outro imóvel, um prédio desocupado em Botafogo. Foram despejadas meses depois pela polícia. Depois foram para outro, o do Automóvel Clube. E foram novamente despejades. Então, foram para outro imóvel. Desta vez um prédio abandonado em Copacabana. O qual reformaram de cima à baixo, limpando todos os andares cheios de poeira e ratos e sem água filtrada. Até serem novamente despejades, partindo para mais uma ocupação.

A história de resiliência, persitência, ativismo, incidência política, pressão, organização, assembleísmo, coletivismo, anarquismo, libertarianismo radical, foi finalmente coroada quando em 2020, depois de apelos até ao bispado da Igreja Católica na cidade, os poderes públicos do estado e do município resolveram entregar um espaço que possuíam para que Casa Nem se tornassem um abrigo público, com gestão participativa.

A trajetória, de altos e baixos, violências múltiplas e decepções com os que largaram a mão dos demais nas horas mais difíceis, é o que existe mais fortemente por detrás da agora candidate, Indianarae Siqueira. E é por isso que toda comunidade BRASILEIRA de LGBTIA+ deve apoiá-la. Com voto ou da forma que puder. Essa é uma missão para além dos partidos políticos, das divisões sectárias, e sim pertence a todo povo que entende a vulnerabilidade específica des LGBTIA+.

Rodrigo Veloso
Escrito por:

Rodrigo Veloso

Rodrigo Luis Veloso é mestrando em sociologia e pesquisador na Universidade Federal Fluminense e do Movimento Unificado pela Diversidade (MUDi)

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1 COMENTÁRIO

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Marcia

Apoiado! Sucesso para Indianarae!

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